Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
A violência raramente começa com um grito. Muitas vezes, ela começa com um “você está exagerando”. Com um “isso é coisa da sua cabeça”. Com um “ninguém vai acreditar em você”. E, quando falamos de mulheres autistas e mães atípicas, esse tipo de frase não é apenas crueldade: é estratégia. Estratégia para isolar, confundir, enfraquecer e manter a vítima em um lugar de dúvida, até que a dúvida vire prisão.
A VIOLÊNCIA GANHA FORÇA QUANDO A SOCIEDADE NÃO SABE NOMEAR O QUE ACONTECE.
A literatura vem mostrando que mulheres autistas enfrentam vulnerabilidades específicas que se acumulam ao longo da vida: dificuldades de leitura social em contextos de risco, histórico de invalidação, solidão, dependência financeira ou emocional, experiências de negligência e a própria falta de preparo dos serviços para reconhecê-las como vítimas. Em outras palavras: não é que elas “se coloquem em perigo”. É que o mundo, muitas vezes, não oferece proteção proporcional às suas necessidades, e ainda cobra que elas “se virem” em silêncio.
Quando a mulher autista é desacreditada, infantilizada ou tratada como “confusa”, a violência encontra brechas. E essas brechas podem ser emocionais, patrimoniais, sexuais e também institucionais: quando um serviço não acolhe, quando uma denúncia é minimizada, quando o relato é tratado como “drama”, quando o comportamento é interpretado como “instabilidade”, e não como sinal de alerta. A invisibilidade não é neutra. Ela é perigosa.
SE A DOR NÃO É RECONHECIDA, A PROTEÇÃO NÃO CHEGA.
Há ainda um fator delicado e muito citado em estudos sobre meninas e mulheres autistas: a camuflagem social, também conhecida como “masking”. Camuflar não é vaidade e não é “frescura”. É, muitas vezes, mecanismo de sobrevivência. É aprender cedo a “parecer normal” para ser tolerada. Só que essa habilidade tem custo: exaustão, ansiedade, sensação de não pertencimento, colapsos silenciosos. E, em situações de violência, a camuflagem pode atrasar o pedido de ajuda, aumentar a culpa e fazer com que a mulher permaneça mais tempo em relações abusivas, porque já foi treinada a duvidar da própria percepção.
No campo das mães atípicas, a vulnerabilidade se intensifica de outro jeito: pela sobrecarga. A mãe que vive em estado de alerta constante, escola, terapias, crises, burocracias, medicações, noites mal dormidas, pode se tornar alvo mais fácil de violência psicológica. E ela escuta frases que parecem “opiniões”, mas operam como desmonte: “você vive em função disso”, “você está doente”, “você inventa problema”, “você não dá conta”, “você é difícil”. Isso também é violência. É o gaslighting que empurra a mulher para o isolamento, e o isolamento é um terreno fértil para abusos.
QUANDO UMA MÃE ATÍPICA PERDE A PRÓPRIA VOZ, A REDE TODA FICA EM RISCO.
Falar disso não é para assustar. É para proteger. Porque há um ponto que precisamos sustentar com firmeza: perceber sinais e procurar ajuda não é exagero. É prudência. É cuidado. É direito. Se algo parece errado, se a sensação é de ameaça, se há controle, humilhação, coerção, invasão de limites, isolamento, medo, isso já é um sinal suficiente para buscar orientação.
E buscar ajuda pode ser um primeiro passo simples, possível e seguro: conversar com alguém de confiança, registrar ocorrências, procurar serviços especializados, acionar canais de denúncia, buscar orientação jurídica e psicossocial. No Brasil, existem caminhos como o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) e, em situação de risco imediato, o 190. Em casos de violação de direitos de crianças e adolescentes, o Disque 100 também é um canal importante. Informação, aqui, não é “conteúdo”. Informação é proteção.
A REGRA DE OURO É: VOCÊ NÃO PRECISA PROVAR TUDO PARA PEDIR AJUDA. VOCÊ PRECISA SE SENTIR SEGURA.
Para o Instituto TEAproxima, falar de violência na Semana da Mulher não é “pauta de data”. É compromisso com uma realidade que atravessa a comunidade TEA de forma concreta e, muitas vezes, invisível. E é aqui que projetos de prevenção ganham sentido: educar para reconhecer riscos, fortalecer comunicação, construir autonomia com apoio e criar redes que saibam acolher sem julgar. É também por isso que iniciativas como o UpTEA Safe tocam um ponto sensível:
proteção se aprende, se treina, se estrutura, e precisa estar acessível, especialmente para quem historicamente foi silenciada.
Se você é mulher autista, ou mãe atípica, e este texto te apertou por dentro, a mensagem é uma só: você não está sozinha, e você não está exagerando. O que você sente merece escuta. E o que você vive merece proteção.
No Instituto TEAproxima, seguiremos insistindo: violência não é destino. É falha de rede. E rede pode, e deve, ser reconstruída.
Se você acredita que informação salva, que rede protege e que a comunidade TEA precisa de apoio constante, considere se tornar um(a) apoiador(a) do Instituto TEAproxima. Apoiar é colocar a justiça em prática, especialmente quando ela é mais urgente do que simbólica.
REFERÊNCIAS
BAHIA, Luanna. Formas de violência contra mulheres autistas: um enfoque no âmbito familiar e suas consequências socioculturais. Artigo acadêmico (PDF).
BRASIL. Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha). Dispõe sobre mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
BRASIL. Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana). Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA.
BRASIL. Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Institui a Lei Brasileira de Inclusão.
HULL, L. et al. (2017). “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders.
(Observação editorial do Instituto: os canais 180/190/100 são caminhos amplamente divulgados como apoio e encaminhamento no Brasil; em caso de emergência, a orientação é buscar o serviço local imediatamente.)
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.