Por Instituto TEAproxima
O Dia das Mães costuma ser envolto em imagens delicadas, abraços coreografados e declarações sobre amor incondicional. Mas há uma camada da maternidade que raramente ganha palco. Uma camada silenciosa, exausta e, ao mesmo tempo, incrivelmente potente: a da resistência cotidiana.
Porque maternar não é apenas cuidar. É sustentar.
Sustentar o invisível. Sustentar o que não aparece nas fotografias. Sustentar o que o mundo não mede.
Maternar é organizar crises antes que elas explodam. É traduzir comportamentos que muitos chamam de “difíceis” em estratégias de apoio. É transformar medo em estudo, em busca por informação, em articulação de rede. É aprender a ler sinais que não são falados em palavras. É negociar direitos em reuniões escolares, em consultas médicas, em protocolos administrativos. É enfrentar barreiras institucionais quando tudo o que se queria era apenas ser mãe.
Para muitas mulheres, especialmente mães atípicas, a maternidade é atravessada por diagnósticos, laudos, relatórios, terapias, avaliações e decisões que carregam peso emocional e financeiro. É atravessada por olhares de julgamento, por comentários não solicitados, por uma culpa social que insiste em responsabilizar a mulher por tudo que não cabe apenas a ela.
O amor existe. E é imenso.
Mas o cansaço também existe. E é real.
Diversos estudos nacionais e internacionais mostram que o cuidado intensivo em contextos de deficiência recai majoritariamente sobre as mulheres. Isso impacta saúde mental, trajetória profissional, renda familiar e qualidade de vida. A maternidade, quando atravessada pela neurodivergência, não é apenas uma experiência íntima, é também uma questão estrutural.
Por isso, quando falamos em acolhimento, não estamos falando apenas de palavras bonitas. Estamos falando de estrutura.
Acolhimento é acesso ao diagnóstico pelo SUS com fluxo organizado e capacitado.
É escola inclusiva que não apenas matricula, mas sustenta permanência com dignidade.
É orientação baseada em ciência, não em achismos.
É rede de apoio comunitária que não desaparece depois da primeira dificuldade.
É política pública que reconhece que o cuidado não pode ser responsabilidade individual.
Celebrar a maternidade sem falar de suporte é romantizar a sobrecarga. É transformar resistência em elogio, quando o que muitas mães precisam é divisão real de responsabilidades.
No Instituto TEAproxima, acreditamos que maternar não deve ser um ato solitário. A maternidade, especialmente quando atravessada pela neurodivergência, precisa ser reconhecida como responsabilidade coletiva. Cuidar de quem cuida é um compromisso social.
Toda forma de maternar merece respeito.
Toda mãe merece cuidado.
Toda história merece ser vista, inteira, com sua força e sua exaustão.
Que este Dia das Mães seja menos sobre flores e mais sobre compromisso.
Menos sobre idealização e mais sobre estrutura.
Menos sobre elogio à força e mais sobre garantia de direitos.
Porque por trás de cada mãe existe uma história de amor que quase ninguém vê.
E é hora de enxergar.
Instituto TEAproxima
Informação que transforma. Inclusão que acolhe.
REFERÊNCIAS
Sobrecarga materna e cuidado em contextos de deficiência
Organização Mundial da Saúde (OMS). Caregiver burden and mental health outcomes in families of children with developmental disabilities.
Hayes, S. A., & Watson, S. L. (2013). The impact of parenting stress: A meta-analysis of studies comparing stress levels in parents of children with and without autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders.
Dardas, L. A., & Ahmad, M. M. (2014). Predictors of quality of life for fathers and mothers of children with autistic disorder. Research in Developmental Disabilities.
Impacto socioeconômico do cuidado intensivo
IBGE (2019–2022). Dados sobre divisão de trabalho doméstico e cuidado não remunerado no Brasil.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Estudos sobre trabalho de cuidado e desigualdade de gênero.
Organização Internacional do Trabalho (OIT). Care work and care jobs for the future of decent work.
Acesso ao diagnóstico e políticas públicas no Brasil
Lei nº 12.764/2012 – Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015).
Ministério da Saúde – Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (2014).
Inclusão escolar e permanência com dignidade
UNESCO (2020). Global Education Monitoring Report – Inclusion and Education.
Ministério da Educação (MEC). Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva.