Os olhos enxergam. O cérebro interpreta.

Editoria TEAproxima Entrevista

Por Caroline ChromiecInstituto TEAproxima

Muito além da acuidade visual: entenda por que o processamento visual influencia a aprendizagem, a integração sensorial e o desenvolvimento de pessoas autistas.

Reportagem especial | Saúde Ocular

Abrir os olhos é um gesto automático. Compreender aquilo que vemos, não.

Todos os dias, milhares de informações chegam ao cérebro por meio da visão. Elas orientam nossos movimentos, ajudam na leitura, na escrita, na aprendizagem, na organização do espaço e na interação com o mundo.

Mas esse processo vai muito além de enxergar com nitidez.

É justamente sobre essa etapa invisível da visão, conhecida como processamento visual, que conversamos com a optometrista e terapeuta visual Núbia Albergoni.

Nesta reportagem especial, ela explica como alterações nesse sistema podem influenciar o desenvolvimento infantil, especialmente em crianças autistas.

Muito além da visão

 

A maior parte das pessoas associa a visão apenas à capacidade de enxergar letras, formas e objetos com nitidez. Entretanto, segundo Núbia Albergoni, essa é apenas uma pequena parte de um sistema extremamente complexo.

O processamento visual corresponde à maneira como o cérebro interpreta, organiza e atribui significado às informações captadas pelos olhos. Em outras palavras, não basta que a imagem chegue aos olhos. Ela precisa ser compreendida.

Enquanto os olhos funcionam como a porta de entrada das informações visuais, é o cérebro que transforma essas informações em conhecimento, memória, movimento e aprendizagem.

"O processamento visual é o significado que damos às informações visuais que obtemos do mundo através dos olhos." Núbia Albergoni

Enxergar bem não significa compreender bem

É comum imaginar que uma criança com exame oftalmológico normal esteja utilizando a visão de maneira eficiente. Mas essa relação nem sempre existe.

Ter boa acuidade visual significa enxergar a imagem com nitidez. Processar visualmente significa interpretar aquilo que está sendo visto.

Segundo Núbia, a visão depende do desenvolvimento de diversas habilidades que trabalham em conjunto, como acomodação, coordenação binocular, movimentos oculares, percepção visual, visão tridimensional e integração entre olhos e mãos.

Quando essas habilidades não se desenvolvem adequadamente, podem surgir dificuldades que passam despercebidas por muitos anos.

"A visão é um sentido que precisa ser construído e aprendido, assim como aprendemos a andar e a falar." Núbia Albergoni

Quando a visão interfere na aprendizagem

Aprender exige muito mais do que atenção.

Leitura, escrita, coordenação motora e organização espacial dependem de um sistema visual eficiente.

Núbia explica que movimentos rápidos dos olhos (movimentos sacádicos), habilidades perceptivas como figura-fundo, visão periférica e fechamento visual fazem parte das bases necessárias para uma leitura fluente e para a compreensão de textos.

Quando essas habilidades apresentam alterações, a criança pode demonstrar dificuldades para acompanhar a leitura, copiar conteúdos, organizar o espaço da folha e manter a atenção durante atividades escolares.

Isso não significa, necessariamente, falta de interesse ou dificuldade intelectual.

Em muitos casos, o sistema visual precisa ser avaliado de forma mais aprofundada.

"Atenção, leitura e escrita são habilidades superiores que dependem de habilidades básicas estarem bem estruturadas." Núbia Albergoni

Visão e integração sensorial caminham juntas

A visão não atua isoladamente.

Ela conversa constantemente com outros sistemas do organismo, como o vestibular, responsável pelo equilíbrio, o sistema proprioceptivo, relacionado à percepção do próprio corpo, e o sistema motor.

Quando essa integração não acontece de forma eficiente, o cérebro precisa criar adaptações que podem interferir em diferentes atividades do cotidiano.

Segundo Núbia, essas dificuldades podem aparecer em situações aparentemente simples, como desenhar, escrever, praticar esportes, andar de bicicleta ou dirigir.

"A relação entre visão, sistema vestibular, propriocepção e sistema motor é fundamental para o desenvolvimento." Núbia Albergoni

Quando vale a pena investigar?

Nem sempre as alterações do processamento visual são percebidas imediatamente.

Alguns sinais podem parecer apenas distração ou dificuldade de aprendizagem, quando, na verdade, indicam que determinadas habilidades visuais precisam ser avaliadas.

Entre os sinais descritos por Núbia estão:

  • aproximar muito o rosto do caderno;
  • fechar um dos olhos durante atividades;
  • perder-se na leitura;
  • utilizar constantemente o dedo para acompanhar o texto;
  • tropeçar ou esbarrar em objetos;
  • dificuldade para compreender aquilo que acabou de ler;
  • dores de cabeça frequentes;
  • dificuldade para aprender a andar de bicicleta.

Uma avaliação específica permite identificar quais habilidades visuais precisam ser desenvolvidas e direcionar a melhor conduta para cada caso.

Um olhar especial para o autismo

Quando falamos em crianças autistas, a avaliação visual funcional ganha ainda mais importância.

Segundo Núbia, alterações em habilidades visuais tendem a ser mais frequentes nessa população, incluindo dificuldades nos movimentos oculares, percepção visual e presença de estrabismo.

Além disso, muitos comportamentos frequentemente observados no TEA podem estar relacionados ao modo como essas crianças recebem e processam estímulos visuais.

Pouco contato visual, olhar lateralizado, fascínio por objetos em movimento e dificuldade em explorar visualmente o ambiente são exemplos que merecem atenção clínica.

Por isso, a especialista destaca que avaliar apenas a acuidade visual pode não ser suficiente.

É necessário compreender como todo o sistema visual está funcionando.

"A visão pode ser a chave que falta para o desenvolvimento pleno." Núbia Albergoni

Quer se aprofundar ainda mais?

Nesta reportagem, reunimos os principais pontos da conversa com a optometrista e terapeuta visual Núbia Albergoni, traduzindo conceitos científicos em uma linguagem acessível para famílias e profissionais.

A seguir, você confere a entrevista na íntegra, com todas as perguntas e respostas da especialista, aprofundando temas como processamento visual, aprendizagem, integração sensorial, desenvolvimento infantil e autismo.

Boa leitura!

 

• Núbia, o que é processamento visual?

De maneira simples, o processamento visual é o significado que damos às informações visuais que obtemos do mundo através dos olhos.
É a maneira como os olhos recebem a imagem através das habilidades de entrada, levadas até o cérebro – onde as informações são organizadas, analisadas, processadas, entendidas e integradas com outros sistemas, e é tomada uma decisão do que fazer com essa informação, geralmente com uma ação motora (como escrever/desenhar/ler) ou integrada com as memórias para ser utilizada depois. 

 

• Qual a diferença entre enxergar bem e processar bem as informações visuais?

Ter uma boa nitidez de imagem não garante entender aquilo que está sendo visto. Ter 100% de nitidez de imagem é uma das habilidades necessárias para ter uma boa visão. A visão é um sentido que tem que ser construído e aprendido a ser usado, tal como aprender a andar e falar, também é necessário aprender a enxergar.

Além da acuidade visual, são necessárias habilidades como: controle da nitidez de imagem (acomodação), controle e sincronia dos movimentos dos olhos, coordenação entre os olhos e mão, conceitos de lateralidade, visão 3D, percepção visual, entre outras que juntas, garantem uma excelente performance visual e um bom processamento visual.

 

• Como alterações no processamento visual podem interferir na atenção, leitura, escrita e organização espacial?

Atenção, leitura e escrita são habilidades superiores que demandam habilidades de base, como a visão e audição, estejam bem estruturadas. O processamento visual envolve várias habilidades que ajudam no desenvolvimento da atenção, como por exemplo movimentos sacádicos e habilidade perceptiva de Figura-fundo. Ambas estão alteradas – na maioria dos casos – em pessoas com TDAH, por exemplo. Já os movimentos sacádicos junto com o fechamento visual e visão periférica, são preditores para uma boa fluência de leitura – sob a perspectiva visual. E todas as habilidades podem ser avaliadas através da Avaliação do Processamento Visual feito por um Optometrista Comportamental/do Neurodesenvolvimento. Caso não estejam dentro do esperado, é possível serem elaboradas através da Terapia Visual Optométrica, pois se trata de um problema na função visual.

 

• Existe relação entre processamento visual e integração sensorial?

Há uma íntima relação, pois um dos subsistemas do processamento visual é a entrada sensorial, e a relação entre a visão e os sistemas vestibular, proprioceptivo e motor é fundamental. Se a via primária, onde recebemos as informações visuais que serão processadas, não entram da forma correta ou não têm uma boa integração com esses outros sistemas, haverão adaptações importantes gerando déficits e dificuldades para executar diferentes atividades, desde ler, escrever, desenhar, até andar de bicicleta e dirigir.

 

• Quais sinais pais, professores e terapeutas devem observar para identificar possíveis alterações?

A visão está presente em tudo que fazemos, desde ações básicas como pegar um copo, até atividades complexas como fazer uma conta ou elaborar um texto. Sinais óbvios como aproximar-se do caderno, espremer os olhos, olhos desviados ou ter dores de cabeça frequentes, até sinais mais discretos como precisar usar o dedo para ler, perder-se na leitura, ser desastrado, dificuldade em entender o que está lendo e não conseguir andar de bicicleta, são indicativos de um sistema visual ineficiente. É necessário avaliar e entender quais habilidades estão falhando e à partir disso é elaborada a melhor conduta para cada caso.

 

• Qual a importância da avaliação visual funcional para crianças com autismo?

Avaliar a visão é uma necessidade básica para todas as crianças, mas mais ainda com autismo, pois a maneira como a visão se desenvolve na criança autista pode ter um caminho diferente do esperado e levar a comportamentos característicos. Isso porque a prevalência de problemas funcionais da visão tem uma tendência de ser maior nessa população, como por exemplo: desvios oculares (estrabismo), problemas nos movimentos sacádicos e alteração na percepção visual.

A visão é tão importante, que atualmente uma das maneiras menos invasivas e mais precoces que ajudam no diagnóstico do autismo é pela análise da atenção visual feita através dos movimentos dos olhos rastreados por eye tracker e um software específico (pesquisas elaboradas pelo Dr. Ami Klin). Essas informações podem ser coletadas e correlacionadas com outros sinais clínicos servindo como um dado relevante a mais para o diagnóstico. 

Além disso, alteração do comportamento visual é um dos principais sinais que a criança pode ter TEA, por exemplo: pouco contato visual, fixação por objetos que giram/ janelas/ ventiladores, olhar lateralizado, “olhar perdido”, entre outros. Por isso é importante realizar avaliação não só da acuidade visual, mas de todas as habilidades de processamento visual – de crianças verbais e não verbais. 

"A visão pode ser a chave que falta para o desenvolvimento pleno." Núbia Albergoni

 

Sobre a editoria TEAproxima Entrevista

A série TEAproxima Entrevista reúne especialistas de diferentes áreas para traduzir o conhecimento científico em uma linguagem acessível, aproximando famílias, profissionais e educadores das evidências que contribuem para o desenvolvimento, a inclusão e a qualidade de vida das pessoas autistas.

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Referências
Fontes consultadas

ALBERGONI, Núbia. Entrevista concedida ao Instituto TEAproxima. Curitiba, 2026.

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (AAP). Identification, Evaluation, and Management of Children With Autism Spectrum Disorder. Pediatrics, 2020.

AMERICAN ACADEMY OF OPHTHALMOLOGY (AAO). Vision Screening Recommendations for Infants and Children. San Francisco.

AMERICAN OPTOMETRIC ASSOCIATION (AOA). Comprehensive Pediatric Eye and Vision Examination. St. Louis.

Referências científicas

KLIN, Ami; JONES, Warren. Altered face scanning and impaired recognition of biological motion in a 15-month-old infant later diagnosed with autism. Journal of Autism and Developmental Disorders.

KLIN, Ami et al. Visual Fixation Patterns During Viewing of Naturalistic Social Situations as Predictors of Social Competence in Individuals with Autism. Archives of General Psychiatry, 2002.

JONES, Warren; KLIN, Ami. Attention to Eyes Is Present But Declines in 2–6-Month-Old Infants Later Diagnosed With Autism. Nature, 2013.

DAWSON, Geraldine et al. Early Behavioral Intervention Is Associated With Normalized Brain Activity in Young Children With Autism. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry.

Diretrizes nacionais

BRASIL. Ministério da Saúde.

Linha de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do SUS.

Brasília: Ministério da Saúde.

BRASIL.

Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012.

Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Leitura complementar

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP).

Manual de Triagem e Desenvolvimento Infantil.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE OFTALMOLOGIA (SBO).

Campanhas e orientações sobre saúde ocular infantil.

AMERICAN OPTOMETRIC ASSOCIATION.

Clinical Practice Guidelines – Pediatric Vision.

Créditos

Entrevistada I Núbia Albergoni I Optometrista e Terapeuta Visual

Especialista em avaliação da eficiência visual, processamento visual e terapia visual. Curitiba – PR

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis no Instituto TEAproxima.