Neurodiversidade não é campanha. É gestão com lei, orçamento e métrica.

Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima

Em poucas palavras

Muitas empresas falam de neurodiversidade. Poucas entregam. Incluir de verdade significa: cumprir a lei, reservar dinheiro para os ajustes necessários e medir resultados. Sem isso, é só marketing.

Por que este texto agora

A pauta ganhou palco e manchetes. Isso é bom se sair do discurso e aparecer na segunda-feira, 9h: vaga bem escrita, entrevista justa, apoio no trabalho, líder preparado e orçamento para ajustes.

Posição do Instituto TEAproxima: apoiamos iniciativas com direitos + apoios + indicadores; rejeitamos a “neurodiversidade” usada como verniz de marca.

1) Começa na lei, não no post

Lei de Cotas (Lei 8.213/91): empresas com 100+ funcionários devem reservar 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência. É ponto de partida, não favor.

O que esperamos ver no site da empresa:

  • Percentual real de cumprimento da lei;

  • Em que áreas essas pessoas trabalham;

  • Evolução anual e plano para fechar qualquer lacuna.

  • Sem publicar isso, é discurso — não compromisso.

2) ESG com “I” de inclusão precisa de KPI

KPI = indicador (o número que prova a entrega).
Exemplos que importam:

  • Contratação (% do time);

  • Retenção (quantos ficam 12/24 meses);

  • Promoção (% que cresce na carreira);

  • Ajustes razoáveis (prazo médio de entrega);

  • Líderes formados (% dos gestores treinados).

  • Sem número público, é adjetivo — não gestão.

3) Seleção e trabalho desenhados para gente real

Programas sérios ajustam o processo, do começo ao fim:

  • Vaga clara (o que entregar, rotina e ambiente: luz/ruído, comunicação);

  • Entrevista estendida e prova prática (menos “impressão”, mais tarefa);

  • Acomodações explícitas (apoios combinados);

  • Onboarding com mentor e roteiro sensorial;

  • Formação de líderes (feedback claro, previsibilidade, manejo de sobrecarga).

Quando o desenho não muda, aumenta a rotatividade e todo mundo se frustra.

4) Orçamento não é detalhe — é o que torna possível

Ajuste razoável custa (iluminação, ruído, software, AAC, tempo de mentoria).
Empresa séria tem rubrica anual de acessibilidade e SLA (prazo) para atender pedidos:

  • Ex.: até 15 dias para itens simples; até 60 dias para estruturais.

Sem dinheiro reservado, a promessa não sai do papel.

5) Transparência e segurança psicológica

O que vale não é “foto bonita de contratação”, e sim gente que fica com saúde.
Mostre:

  • Retenção 12/24 meses com recorte de neurodiversidade;

  • Promoções;

  • Clima e segurança psicológica (como as pessoas se sentem) com plano para melhorar onde for preciso.

Quem fica conta mais do que quem entra.

Linhas vermelhas do TEAproxima (o que não endossamos)

  • “Programa” sem cumprir a Lei de Cotas ou que terceiriza para maquiar números;

  • Storytelling de “talentos extraordinários” sem apoio real, formação e dados;

  • Vagas que pedem “perfil neurodiverso” e mantêm processo padrão (pressão, ruído, luz hostil, “fit” subjetivo);

  • Uso de pessoas neurodivergentes em divulgação sem pagamento ou sem consentimento claro.

 

Chamado às empresas

  1. Publicar cumprimento da Lei de Cotas e plano para fechar gaps.

  2. Criar painel de KPIs (contratação, retenção, promoção, ajustes, líderes formados) e ligar a bônus de executivos.

  3. Reformar seleção/onboarding (prova prática, acomodações, mentor) e treinar 100% dos líderes de times com pessoas neurodivergentes.

  4. Orçar acessibilidade com SLA e canal seguro para pedidos e denúncias.

  5. Reportar retenção/promoção com recorte e ações para melhorar.

 

Glossário rápido

  • KPI: indicador que mede resultado (ex.: retenção 12/24 meses).

  • SLA: prazo combinado para entregar um serviço (ex.: ajuste em 15 dias).

  • Ajuste razoável: mudança viável para remover barreiras (ex.: fone antirruído, luz adequada, rotina previsível, software de apoio, tempo de mentoria).

 

O que fica depois do post

NEURODIVERSIDADE vale quando alguém ENTRA, APRENDE, ENTREGA, é RESPEITADO, e FICA. O resto é ruído. Como Instituto, não aplaudimos promessas: cobramos entregas.

Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.