Mães atípicas: entre o amor que sustenta e o esgotamento que adoece

Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima

Há uma parte da maternidade atípica que quase nunca aparece nas fotos e nos discursos. Ela mora no corpo que segura o dia inteiro sem pausa, no cérebro que não desliga nem quando a casa dorme, no coração que ama sem medida e, ainda assim, aprende a sobreviver no limite. Não é falta de fé. Não é “drama”. É exaustão real, física, emocional e social.

O que sustenta muitas dessas mães não é uma “força sobrenatural”, mas uma rotina construída à base de urgências: consultas, terapias, medicações, escola, crises, burocracias, deslocamentos, justificativas. Enquanto o mundo segue, elas negociam com o tempo. E quase sempre fazem isso sozinhas. O amor vira estrutura. E o corpo, sem rede, vira conta.

Nos últimos anos, o Instituto TEAproxima tem escutado a mesma frase, dita em diferentes tons: “eu não tenho com quem dividir”. É aí que a maternidade atípica deixa de ser apenas uma vivência individual e passa a revelar um problema coletivo, e político. Porque quando uma mãe precisa abandonar o trabalho para garantir o cuidado, quando a saúde mental dela se desfaz em silêncio, quando o casamento se desgasta, quando a culpa vira rotina, não estamos diante de um “caso da família”. Estamos diante de uma sociedade que ainda não organizou a própria responsabilidade.

O artigo “Entre o amor que sustenta e o esgotamento que adoece: mães atípicas” descreve exatamente esse cenário: a maternidade, por si, já impõe responsabilidades significativas, mas o cuidado especializado de uma criança autista pode elevar esse peso a um patamar de sofrimento psíquico, estresse, sobrecarga emocional e quadros depressivos. E há um ponto que precisa ser dito sem rodeios: as políticas públicas, quando existem, tendem a olhar para a criança, e a esquecer quem mantém a criança viva, estimulada, protegida, atendida, em desenvolvimento.

A ausência de suporte à mãe não é detalhe. É gatilho. É risco. É a diferença entre continuar… e desabar. E, quando o desabamento vira manchete, muita gente pergunta “como isso aconteceu?”. A pergunta que deveria vir antes é outra: quantas vezes essa mãe pediu ajuda e não foi ouvida? Quantas vezes ela sinalizou que estava no limite e recebeu um “vai passar”? Quantas vezes ela foi tratada como “exagerada”, quando na verdade estava adoecendo?

Mãe atípica não precisa ser heroína. Precisa ser cuidada.

Estudos apontam que há iniciativas legislativas em discussão que reconhecem essa urgência, como propostas de atendimento prioritário, inclusive psicossocial, a pais atípicos no SUS, e projetos que discutem redução de jornada de trabalho para mães de crianças com TEA. Mas ele também alerta: ainda não é suficiente. Porque reconhecer no papel não garante suporte na vida real. E a vida real não espera.

A maternidade atípica, hoje, exige uma rede que funcione: saúde, escola, assistência, trabalho e comunidade. Exige também que o cuidado com quem cuida deixe de ser “gentileza” e vire política. Porque o esgotamento não é fraqueza moral; é um sinal de que o sistema está empurrando a responsabilidade inteira para uma pessoa só.

No Instituto TEAproxima, essa pauta é compromisso. Não para romantizar a dor, mas para nomear o que acontece antes do colapso. Para aproximar informação, conectar redes e transformar silêncio em conversa séria. Mães atípicas sustentam o mundo de alguém. E quando elas caem, não cai só uma rotina: cai uma família inteira.

O cuidado que a gente nega às mães atípicas hoje… é a urgência que a gente vai lamentar amanhã.

Se você é mãe atípica, que este texto não te coloque mais peso, que ele te devolva o direito de existir além do cuidado. E se você convive com uma mãe atípica, que este texto te convoque: não é sobre admiração. É sobre apoio concreto.

 

Instituto TEAproxima

Aproximar. Conectar. Transformar.

 

Referências 

VITORINO, Betânia Medeiros; LOPES, Franciele Dias de Souza; OLIVEIRA, Jéssica Carlos de; CARLETO, Kamily; FRAGA, Maria Alice Oliveira; LUCAS, Stela Onícia Sampaio; CALDAS, Aline Cirilo; PAIVA, Rosicler Carminato Guedes de. Entre o amor que sustenta e o esgotamento que adoece: mães atípicas. In: I CONECTA AFYA, v. 1, n. 1, 2025.

 

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.