Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
Quando pensamos em autismo e acessibilidade, quase sempre a resposta vem na mesma direção: recursos visuais. Quadros de rotina, pictogramas, agendas coloridas, pistas visuais pelas paredes da escola. É como se, para apoiar a criança autista, a gente automaticamente imaginasse um mundo cheio de imagens, cores e referências visuais.
Mas e quando a criança autista não enxerga?
No Dia Mundial do Braille, vale acender uma luz sobre um grupo quase invisível: crianças e jovens que, além de estarem no espectro autista, também são cegos ou têm deficiência visual severa. Para eles, a acessibilidade não passa apenas por deixar tudo mais visual, passa, literalmente, por aprender a ler o mundo com as mãos.
Autismo e cegueira não são universos separados, e quando se encontram, a inclusão precisa ser duas vezes mais cuidadosa.
Pesquisas em diferentes países mostram que a prevalência de autismo em crianças cegas é muito maior do que na população geral infantil. Em alguns estudos, aproximadamente um terço das crianças com cegueira atende critérios para Transtorno do Espectro Autista, muitas vezes com outras condições associadas. Ou seja: não estamos falando de casos raros ou isolados. Estamos falando de uma intersecção real, autismo e cegueira, que ainda aparece pouco nas políticas públicas, nos currículos universitários e até nas conversas mais progressistas sobre inclusão.
Para uma criança autista que enxerga, muitos apoios passam pelo olhar: ver a expressão do professor, acompanhar o que está escrito no quadro, se orientar por figuras, símbolos e cores. É o famoso apoio visual que tanta gente já ouviu como recomendação.
Para uma criança autista cega, esse caminho simplesmente não existe. Ela depende de pistas táteis e auditivas para compreender o que está acontecendo, antecipar mudanças, organizar o pensamento e se comunicar. O corpo precisa “ver” com as mãos, com a pele, com a escuta.
Estudos com estudantes cegos autistas apontam desafios recorrentes nesse cruzamento de experiências. A sobrecarga sensorial aparece com força: ruídos intensos, muitas vozes ao mesmo tempo e ambientes confusos drenam a energia rapidamente e atrapalham a aprendizagem. A função executiva, iniciar tarefas, organizar materiais, manter o foco, concluir atividades, exige um apoio ainda mais estruturado quando a informação não chega pela visão. A compreensão de contexto também fica mais delicada: sem pistas visuais, entender quem está onde, o que está acontecendo e qual é o próximo passo se torna mais difícil, o que pode aumentar a ansiedade e comportamentos de fuga ou recusa.
Nessas situações, o Braille não é luxo. O Braille é ferramenta básica de participação.
Assim como a comunicação alternativa abre caminhos para crianças autistas não oralizadas, o Braille abre portas para que crianças autistas cegas possam acompanhar o mundo escrito. Quando essa criança tem acesso ao Braille, no papel ou em dispositivos eletrônicos, surgem possibilidades que vão muito além de “aprender a ler”.
O Braille permite acompanhar instruções com mais autonomia, sem depender exclusivamente da voz de um adulto. Ajuda a organizar rotinas em formato tátil, agendas, listas, combinados, que podem ser revisados com as próprias mãos, quantas vezes forem necessárias. Garante acesso real a conteúdos escolares, e não apenas a versões faladas e resumidas, que chegam filtradas por outra pessoa. Cria espaço para registrar pensamentos, preferências, histórias e ideias, sem que a vida fique restrita à oralidade e à memória de quem escuta.
Mas o Braille, sozinho, não resolve tudo. A literatura especializada mostra que as melhores estratégias para esses estudantes surgem quando práticas baseadas em evidências para autismo, muitas delas construídas com forte componente visual, são adaptadas para o universo tátil e auditivo. Isso significa considerar o tempo de processamento de cada criança, suas necessidades sensoriais, seu jeito único de aprender, e transformar o que antes era quadro, figura ou cor em textura, som, sequência, ritmo.
Esse tipo de inclusão não nasce no improviso. Ele exige formação específica, tempo de planejamento, trabalho em equipe e diálogo constante entre família, escola e serviços especializados. Exige que a pergunta mude de “como adaptar uma criança ao que já existe” para “como adaptar o que existe para que essa criança também caiba”.
Quando falamos de autismo e esquecemos quem também tem deficiência visual, a mensagem oculta é dura: algumas vidas podem continuar fora do radar.
No Dia Mundial do Braille, o incômodo do Instituto TEAproxima é justamente esse: se a comunicação acessível não contempla autistas leitores de Braille, ela ainda está incompleta. Não basta celebrar a data com frases bonitas se, na prática, o planejamento pedagógico, as políticas públicas e a formação de profissionais seguem sem mencionar essa intersecção.
Olhar para essa pequena parcela da população autista é mais do que um gesto técnico. É um compromisso ético com quem enfrenta desafios múltiplos e, muitas vezes, acumula também exclusões múltiplas. É admitir que a inclusão precisa funcionar também, e sobretudo, para quem está nas bordas do sistema, e não apenas para quem se encaixa nos perfis mais comuns.
Na prática, isso passa por incluir o tema autismo + deficiência visual em formações de professores, profissionais de saúde e equipes de cultura; garantir acesso ao Braille e a tecnologias assistivas para crianças autistas cegas desde cedo; criar materiais pedagógicos e comunicacionais que possam ser convertidos em Braille, áudio e formatos táteis; e, sobretudo, ouvir famílias e jovens que vivem essa realidade, porque eles sabem, na pele, onde as barreiras ainda estão.
No Instituto TEAproxima, acreditamos que aproximar, conectar e transformar também significa enxergar quem quase nunca é visto.
Quando você pensa em autismo e comunicação acessível, quem ainda está ficando de fora da sua conversa?
Se a resposta incluir crianças autistas cegas, estamos, finalmente, começando a caminhar na direção certa.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.
Referências
VERDIER, K.; FERNELL, E.; EK, U. Challenges and successful pedagogical strategies: experiences from six Swedish students with blindness and autism in different school settings. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 48, p. 520–532, 2018. DOI: 10.1007/s10803-017-3360-5.