Dia do Fonoaudiólogo: quando existir passa pela Comunicação Alternativa – CAA

Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima

No Brasil, o Dia do Fonoaudiólogo, celebrado em 9 de dezembro, é uma oportunidade de reconhecer profissionais que constroem pontes onde, muitas vezes, a fala não chega. Para a comunidade TEA, essa data tem um significado especial: é também o dia de falar alto sobre a importância da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) para crianças, adolescentes e adultos autistas que não utilizam a fala oral como principal forma de se comunicar.

Mais do que um recurso terapêutico, a CAA é o que permite que muitas pessoas simplesmente existam no mundo como sujeitos de desejo, opinião e escolha.

O que é CAA – e por que ela é tão importante no autismo

A Comunicação Aumentativa e Alternativa é o nome dado a um conjunto de recursos, estratégias e tecnologias que ampliam ou substituem a fala oral: pranchas com figuras, gestos, símbolos gráficos, dispositivos com saída de voz, aplicativos em tablets e celulares, entre outros.

Hoje, entidades de referência em fonoaudiologia e comunicação, como a ASHA (American Speech-Language-Hearing Association) e a ISAAC (International Society for Augmentative and Alternative Communication), reconhecem a CAA como uma área consolidada, com evidências crescentes de eficácia para pessoas com atrasos e transtornos de comunicação, incluindo crianças autistas, minimamente verbais ou não oralizadas.

No contexto do autismo, a CAA oferece um caminho concreto para que a pessoa possa pedir, recusar, comentar, escolher e protestar; reduz frustrações e comportamentos desafiadores ligados à impossibilidade de se fazer entender; favorece a participação em casa, na escola e na comunidade; e organiza a linguagem e o pensamento, abrindo espaço para que a intenção comunicativa apareça com mais clareza.

E um ponto que a ciência já respondeu com força: usar CAA não atrasa a fala.
Revisões sistemáticas mostram que intervenções com CAA não impedem o desenvolvimento da fala oral, na maioria dos casos, há até aumento modesto na produção de fala após a introdução da comunicação alternativa.

Ou seja: CAA não “troca” a fala.
CAA abre a porta da comunicação enquanto, e se, a fala oral vem.

Existir com CAA: quando a voz do meu filho é feita de figuras, toques e olhares

Na nossa comunidade TEA, a CAA não é um conceito abstrato de artigo científico. Ela mora no cotidiano de um menino de 8 anos, autista nível 3 de suporte, não oralizado, que aprende a contar ao mundo o que sente e o que precisa por meio de figuras, toques na tela, apontar, olhar e gestos.

Quando ele toca em um símbolo para dizer que quer água, quando escolhe entre duas opções de atividade numa prancha, quando recusa algo com um cartão de “não” ou sinaliza dor com um ícone específico, não está “apertando botões”: está exercendo o direito básico de ser entendido.

A CAA, nesse contexto, não é “apenas uma técnica de fonoaudiologia”; ela devolve à criança o poder de interromper o que a incomoda, permite que familiares saiam do lugar de adivinhar e passem ao lugar de escutar e ressignifica comportamentos que antes eram lidos só como “crise” ou “birra”, mostrando que havia sempre uma mensagem ali.

Para famílias de crianças não oralizadas, a CAA representa o momento em que a casa deixa de ser um campo de adivinhação e passa a ser um espaço de diálogo, ainda que esse diálogo aconteça em figuras, toques e pranchas.

Na clínica: a experiência da fonoaudióloga Isabela Obrzut

Para além dos dados e definições, a CAA ganha corpo na prática diária das fonoaudiólogas que acompanham crianças autistas e suas famílias. Perguntamos à fonoaudióloga Isabela Obrzut o que ela tem visto mudar na vida das crianças autistas não oralizadas quando a Comunicação Aumentativa e Alternativa é, de fato, assumida como voz, e não como último recurso.

“Dentro do Espectro do Autismo, que tem como principal característica déficits na comunicação, vemos diferentes perfis e necessidades comunicativas. Considerando crianças não oralizadas (aquelas que não usam a fala como principal meio para se comunicar), muitas apresentam Necessidades Complexas de Comunicação, que sem suporte adequado geram falta de acesso à comunicação, o que acarreta inúmeros prejuízos e desvantagens, limitando a participação social e as suas oportunidades.”

Segundo Isabela, é justamente aí que a CAA se torna fundamental:

“A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) busca superar as barreiras de comunicação que essas crianças podem apresentar, por meio de ferramentas, recursos e estratégias para ser capaz de fornecer acesso à comunicação a partir de oportunidades práticas e reais.
No meu fazer profissional, a maior mudança que posso observar vem da criança — quando ela compreende que há uma forma de se fazer entender!”

Na rotina terapêutica, isso significa criar contextos que façam sentido:

“Eu, como fonoaudióloga, busco aproximar meus pacientes de momentos significativos e lúdicos, pensando em situações reais de comunicação e nos recursos que possam auxiliar nesse processo. Meu objetivo é que eles se sintam à vontade e com vontade de se comunicarem!
E quando a criança entende que existe uma forma para ela se comunicar; que ela consegue mostrar suas necessidades, pensamentos, desejos e ideias para o outro de uma forma funcional e clara, e que o outro realmente a entende… é transformador!”

Quando perguntamos o que a CAA muda, na prática, na relação com a família, na redução de frustrações e crises e na participação no dia a dia, Isa é direta:

“Eu atendo muitas crianças autistas e percebo que a falta da comunicação acarreta em muitos desafios para a criança, sua família, sua equipe terapêutica, sua escola. Todos se comunicam; mas, às vezes, a forma que a criança encontrou para se comunicar e se fazer entender não é funcional, não é clara e pode trazer riscos (tanto para a criança como para seu parceiro de comunicação).”

Ela destaca que muitos comportamentos considerados “inadequados” são, na verdade, tentativas de comunicação:

“A inserção da CAA pode melhorar significativamente comportamentos inadequados, considerando que esses são, muitas vezes, tentativas de comunicação. Oferecer uma outra forma eficaz de se comunicar é capaz de reduzir também as frustrações ligadas às dificuldades comunicativas.”

Mas Isabela faz um alerta importante: não basta a criança ter acesso à ferramenta se o entorno não acompanha.

“É essencial que todos em seu convívio sejam seus parceiros comunicativos. Não basta apenas que a criança tenha acesso aos recursos de CAA, é fundamental que todos que estejam ao seu entorno – familiares, cuidadores, professores e colegas – dominem e utilizem o método de comunicação dela.
Isso permite que a criança participe de oportunidades reais de interação, aprendizado e expressão. Permite que ela se sinta incluída, valorizada e compreendida, fortalecendo sua autoestima e promovendo o desenvolvimento social e cognitivo.”

Mesmo com tantos avanços, Isa ainda encontra muitos mitos e resistências:

CAA vai atrapalhar o desenvolvimento da fala.

“Não! Inclusive, pesquisas apontam que, em alguns casos, pode até auxiliar no seu desenvolvimento. A CAA permite que a criança tenha acesso à estruturação da linguagem e a maiores oportunidades de interação e trocas, aumentando suas possibilidades comunicativas.”

É preciso ter pré-requisitos para iniciar.

“Não! Considerando que todos se comunicam, qualquer pessoa com dificuldades de comunicação – independente da idade, diagnóstico ou habilidades – pode iniciar o uso da CAA.”

É melhor esperar o tempo da criança.

“Não! O ideal é ofertar suporte assim que dificuldades comunicativas sejam observadas, pois quanto antes a criança tiver acesso a ferramentas de comunicação, maiores oportunidades ela terá de se expressar e participar do mundo ao seu redor.”

CAA é só quando nada mais funcionar.

“Não! A CAA é um recurso que pode e deve ser introduzido precocemente, como um suporte da comunicação. Esperar para introduzir a CAA só quando outras opções não funcionam pode causar problemas de comportamento e tirar oportunidades de aprendizado, desenvolvimento e de criar relações.”

Na voz da profissional, fica muito evidente: CAA não é plano B. É caminho de dignidade comunicativa desde o início.

CAA como direito humano de comunicação

Organizações como a ISAAC e movimentos internacionais de defesa de direitos lembram que comunicar-se é um direito humano, não um bônus para quem fala bem. Pessoas que usam CAA têm o direito de acessar, participar e ser ouvidas em todos os espaços – escolas, serviços de saúde, comunidades, eventos.

Quando falamos de crianças autistas não oralizadas, isso significa ter acesso a sistemas de comunicação que façam sentido para o seu perfil, conviver com adultos (familiares, professores, terapeutas) que aprendam a usar e respeitar esses recursos e ser vista como alguém que tem o que dizer, mesmo que não diga com a voz.

CAA não é só sobre “falar”.
CAA é sobre exercer cidadania: escolher, recusar, opinar, perguntar, participar de decisões sobre a própria vida.

O papel da fonoaudióloga na construção dessa voz

No Dia do Fonoaudiólogo, é importante reconhecer o papel essencial dessas profissionais (e profissionais) na vida das pessoas autistas e de suas famílias.

É a fonoaudióloga que avalia o perfil de comunicação da criança, suas habilidades motoras, cognitivas e sensoriais; ajuda a escolher o tipo de sistema de CAA mais adequado (pranchas de baixa tecnologia, dispositivos com voz, combinações de recursos); orienta família, escola e outros profissionais sobre como usar a CAA de forma funcional no dia a dia, e não só na sessão de terapia; e acompanha a evolução, ajusta símbolos, amplia vocabulário e respeita o ritmo da criança.

Quando a CAA é pensada de forma compartilhada, fono, família, escola, equipe de saúde, ela deixa de ser um recurso “especial” e passa a ser parte natural da forma como aquela pessoa está no mundo.

Existir com CAA

Para nós, enquanto Instituto TEAproxima, falar de CAA no Dia do Fonoaudiólogo é afirmar um compromisso com crianças autistas não oralizadas, que não podem esperar a fala para começar a existir socialmente; com fonoaudiólogas e fonoaudiólogos que estudam, se atualizam e enfrentam resistências para colocar a CAA no centro da prática; e com famílias que, ao aceitarem a CAA, não “desistem da fala”, mas desistem de esperar em silêncio.

Que este 9 de dezembro seja um convite:

para enxergar que nem toda voz tem som,
mas toda pessoa merece um jeito de ser ouvida.

 

 

Isabela Obrzut é fonoaudióloga, com atuação voltada para linguagem infantil, autismo, comunicação alternativa e transtornos motores de fala. É:

  • Bacharel em Fonoaudiologia pela Universidade Tuiuti do Paraná (2023);

  • Pós-graduanda em Desenvolvimento Infantil (CBI of Miami);

  • Pós-graduanda em Comunicação Aumentativa e Alternativa com Ênfase Clínica e Escolar (Instituto Vivaion);

  • Pós-graduanda em Intervenção ABA aplicada ao Autismo e outros Transtornos do Desenvolvimento (PUC/PR).

Possui formação complementar em ABA e estratégias naturalistas, aprimoramentos em linguagem infantil, cursos específicos em CAA e em transtornos motores de fala.

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.