Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
Quando racismo e capacitismo se cruzam, crianças e adultos negros autistas ficam ainda mais invisíveis. A comunidade TEA precisa olhar para isso.
O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, marca a memória de Zumbi dos Palmares e a resistência dos quilombos contra a escravização no Brasil. Mais do que uma data simbólica, é um chamado para reconhecer a contribuição da população negra na construção do país e enfrentar o racismo que ainda estrutura nossa sociedade.
Nos últimos anos, a data ganhou ainda mais força: em 2023, foi instituída como feriado nacional, reforçando a importância de parar, olhar e falar sobre desigualdades raciais de forma honesta.
Mas onde entra o autismo nessa conversa?
Autistas negros existem — e são menos vistos
O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA no Brasil, o que corresponde a 1,2% da população.
Quando olhamos mais de perto para raça e cor, percebemos um padrão: pessoas brancas relatam diagnóstico com um pouco mais de frequência do que pessoas negras e indígenas. Especialistas apontam que essa diferença não reflete “menos autismo”, e sim menos acesso a diagnóstico e a serviços.
Em outras palavras:
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há autistas negros sem diagnóstico;
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há histórias negras que não chegam às estatísticas;
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há famílias negras atípicas que se sentem sozinhas, deslegitimadas e culpabilizadas.
Estudos e relatos vêm mostrando que o racismo interfere em todas as etapas: na escuta, no encaminhamento, na avaliação, no atendimento e até na forma como crises e comportamentos são interpretados.
Uma mesma cena, uma criança em meltdown, gritando, batendo, tentando fugir, pode ser vista de maneiras completamente diferentes dependendo da cor da pele e do CEP dessa criança.
Enquanto uma é acolhida e encaminhada para avaliação, outra é julgada, punida, ameaçada.
Racismo + capacitismo: o peso de duas violências
Para uma pessoa negra autista, não é “só” sobre acessibilidade e inclusão.
É também sobre:
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ser confundida com ameaça em situações de crise;
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ter menos chance de ter seu comportamento interpretado como sinal de TEA;
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ter seus direitos negados por falta de informação ou por preconceito explícito;
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enfrentar barreiras financeiras e territoriais para acessar terapias e serviços especializados.
Falamos, então, de dupla vulnerabilidade:
por ser autista;
por ser negra;
…e, muitas vezes, também por ser pobre, periférica, moradora de regiões com poucos recursos.
O que isso exige da comunidade TEA?
Se nós, enquanto comunidade que luta por inclusão, não olharmos para as questões raciais, corremos o risco de reproduzir as mesmas exclusões que criticamos.
Algumas perguntas precisam nos acompanhar:
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Quem aparece nas campanhas sobre autismo?
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Quem ocupa os palcos, as mesas de debate, os cargos de direção?
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As famílias negras atípicas se sentem bem-vindas nos espaços que criamos?
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Como falamos de TEA em escolas onde a maioria dos estudantes é negra?
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Nossos materiais contemplam diferentes tons de pele, culturas, cabelos, histórias?
No Instituto TEAproxima, acreditamos que onde muitos veem “caso difícil”, precisamos enxergar contexto, história e potência.
Nosso compromisso passa por:
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ouvir mais pessoas negras autistas e famílias negras atípicas;
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incluir essa pauta nas formações com profissionais da saúde, da educação e da rede de apoio;
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fortalecer redes de apoio que acolham a experiência de ser negro e atípico num país marcado pela desigualdade racial.
Dia da Consciência Negra também é dia de falar de TEA
Quando dizemos que “diferença é potência”, não podemos deixar que isso fique apenas no discurso.
O Dia da Consciência Negra nos lembra que:
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não há inclusão real sem enfrentamento ao racismo;
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não há comunidade TEA verdadeiramente acolhedora enquanto parte dela continua invisível;
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não há futuro mais justo sem escutar quem carrega na pele e no corpo esses atravessamentos.
Vidas negras autistas importam.
Importam na escola, no posto de saúde, no trabalho, nas políticas públicas, nas pesquisas, nos congressos e nas nossas conversas de todos os dias.
Que este 20 de novembro seja mais do que uma postagem nas redes:
que seja um ponto de virada na forma como olhamos para o autismo no Brasil, com raça, com contexto, com coragem e com compromisso.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.