Crise sensorial em adolescentes autistas: o que a ciência começa a organizar, e por que isso importa agora

Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima

Quem convive com adolescentes autistas sabe que algumas cenas se repetem: um ambiente barulhento demais, luz forte, muita gente falando ao mesmo tempo… e, de repente, o corpo entra em colapso. Gritos, choro, tentativa de fuga, mãos nos ouvidos, queda no chão. Para quem olha de fora, ainda é comum ouvir rótulos como “surto”, “falta de limite”, “rebeldia”. Para quem está dentro, é exaustão dos sentidos.

Crise sensorial não é “escândalo”. É um corpo dizendo: “cheguei no meu limite”.

Crise sensorial é quando o sistema nervoso, já sobrecarregado, não consegue mais processar o que está acontecendo ao redor. As informações que chegam pelos sentidos: som, luz, cheiro, toque, movimento, deixam de ser apenas estímulos e viram dor, confusão, ameaça. Estudos mostram que as experiências sensoriais do ambiente são centrais para o desenvolvimento e podem favorecer comportamentos mais adaptativos quando bem trabalhadas; mas, quando a integração sensorial falha, o risco de crise aumenta de forma importante.

É nesse cenário que se insere o artigo “Estratégias de prevenção e enfrentamento de crises sensoriais no Transtorno do Espectro Autista em adolescentes: um protocolo de revisão de escopo”, de Marinho e colaboradores (2022). Mais do que apresentar respostas prontas, o texto mostra que a própria ciência está se organizando para responder a uma pergunta que ainda tem poucas respostas sistematizadas:

Que estratégias ajudam, de fato, a prevenir e enfrentar crises sensoriais em adolescentes autistas?

A escolha pelos adolescentes não é aleatória. A puberdade traz mudanças hormonais, demandas sociais mais complexas, pressão escolar e expectativas de autonomia. Para muitos jovens autistas, esse período vem acompanhado de aumento de crises, justamente porque o mundo fica mais exigente e, ao mesmo tempo, continua pouco preparado para acolher diferenças sensoriais.

Quanto mais o mundo exige “controle”, menos ele oferece condições reais de regulação.

O artigo inclui, entre suas palavras-chave, não apenas “transtorno do espectro autista”, mas também “família” e “estresse psicológico”, lembrando que cada crise atravessa não só o corpo do adolescente, mas toda a rede que cuida dele.

Do ponto de vista metodológico, os autores propõem uma revisão de escopo baseada em diretrizes internacionais (Joanna Briggs e PRISMA-ScR), buscando estudos em bases como LILACS, SciELO, Medline e Scopus, sem recorte temporal. A pergunta norteadora é direta: “Quais as estratégias de prevenção e enfrentamento de crises sensoriais de adolescentes autistas?”. A ideia é mapear o que já foi produzido em diferentes países e contextos, organizar esse conhecimento em categorias e oferecer um panorama que possa orientar práticas de cuidado.

Quando a ciência decide olhar para um tema, ela está dizendo: isso é importante demais para ficar só no improviso.

Hoje, em muitas casas e escolas, o manejo de crise ainda é feito por tentativa e erro. Quem está ao lado do adolescente vai improvisando: apaga a luz, tira da sala, oferece colo, pede para “se acalmar”. Em alguns lugares, infelizmente, a resposta ainda passa por contenções físicas inadequadas, castigos ou interpretações morais do comportamento. Falta um repertório de estratégias estruturadas, baseadas em evidências, que possam orientar famílias, profissionais de saúde, educadores e a própria comunidade.

O protocolo de Marinho e colegas parte justamente da percepção de que as crises sensoriais precisam ser identificadas, descritas e difundidas com clareza, para que mais pessoas iniciem um verdadeiro processo de compreensão sobre o tema. Mapear essas estratégias pode sustentar melhorias tanto na implementação de tecnologias voltadas à prevenção quanto na qualificação do cuidado oferecido a adolescentes autistas e suas famílias.

Sem linguagem para falar de crise, o que sobra é culpa, medo e improviso.

Na prática, isso significa caminhar em duas direções ao mesmo tempo. De um lado, reconhecer que não existe “receita única”: cada adolescente tem gatilhos, histórias e modos de sentir o mundo. De outro, admitir que já há elementos em comum suficientes para orientar programas de prevenção, rotinas sensoriais bem planejadas, ambientes menos hostis e protocolos de crise que priorizem segurança e dignidade.

Do lugar do Instituto TEAproxima, essa discussão nos atravessa em duas camadas. A primeira é afetiva: ouvimos, diariamente, mães, pais e cuidadores que descrevem a sensação de impotência diante de crises intensas, em casa, na escola, na rua. A segunda é política: enxergamos o quanto a falta de informação qualificada gera decisões equivocadas em serviços, redes e políticas públicas. Quando uma crise sensorial é lida apenas como “mau comportamento”, abre-se espaço para punições, exclusão escolar e culpas que não cabem no peito de ninguém.

Quando confundimos dor com “desobediência”, respondemos com punição onde era preciso oferecer apoio.

Uma agenda séria de prevenção e enfrentamento de crises sensoriais passa por formação contínua de profissionais, construção de protocolos em escolas e serviços de saúde, escuta ativa de adolescentes autistas sobre o que os ajuda ou piora a situação e apoio concreto às famílias. Mas passa também por algo mais profundo: reconhecer que o direito de estar no mundo sem ser violentado pelos próprios sentidos é um direito humano básico.

Enquanto o estudo avança, o convite que fica, para famílias, profissionais e gestores, é simples e exigente ao mesmo tempo: não esperar a próxima crise para começar a falar de crise. Perguntar, registrar, observar, construir rotinas sensoriais, revisar ambientes, cobrar políticas públicas. E, sobretudo, lembrar que cada vez que escolhemos compreender em vez de julgar, estamos um passo mais perto de transformar a forma como a sociedade responde ao sofrimento de adolescentes autistas.

No fim das contas, uma crise sensorial nunca é apenas “um momento difícil”. É um pedido urgente de adaptação que o corpo faz ao ambiente.

A questão é: vamos continuar chamando esse pedido de “escândalo”, ou vamos nos responsabilizar por ouvir o que ele está dizendo?

O Instituto TEAproxima disponibiliza gratuitamente um Protocolo de Crise em PDF, pensado para ser impresso, plastificado e colocado em local visível na escola, clínica, serviços de saúde ou em casa. A proposta é que, nos momentos de maior tensão, ninguém precise “inventar na hora”: o passo a passo já esteja ali, claro e acessível, ajudando a prevenir riscos, organizar a atuação da equipe e garantir mais segurança e cuidado para adolescentes autistas e suas famílias.

https://drive.google.com/file/d/1KT9aQh_tuy4K8n5vnHt_7I6eCTBMfwu2/view?usp=drive_link

 

Referências:

MARINHO, Rossana Aguiar de Vasconcelos; FREITAS, Dorlivete Moreira Ferreira de; OLIVEIRA, Karanini Paz de; GARCES, Thiago Santos.
Estratégias de prevenção e enfrentamento de crises sensoriais no Transtorno do Espectro Autista em adolescentes: um protocolo de revisão de escopo. Research, Society and Development, v. 11, n. 13, e04111334430, 2022. DOI: 10.33448/rsd-v11i13.34430.

 

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis no Instituto TEAproxima.