Comunicação | Instituto TEAproxima
CIÊNCIA EM LINGUAGEM ACESSÍVEL
Um estudo brasileiro acompanhou cinco crianças autistas que utilizaram óleo de cannabis full spectrum rico em canabidiol como tratamento complementar. Os resultados relatados incluem mudanças em sono, hiperatividade, irritabilidade, comunicação e outros aspectos. Mas o desenho da pesquisa exige cautela: estamos diante de uma série de casos, e não de uma demonstração definitiva de eficácia.
Quando um tratamento é associado a mudanças importantes na vida de uma criança, é compreensível que a história desperte interesse.
Quando cinco crianças apresentam mudanças após a introdução desse tratamento, o interesse aumenta.
Mas existe uma pergunta essencial quando estamos diante de uma pesquisa científica:
o que esses resultados realmente permitem concluir?
Essa distinção é especialmente importante quando o assunto é o uso de derivados da cannabis em crianças autistas, um tema que envolve expectativas familiares, decisões clínicas e uma literatura científica ainda em desenvolvimento.
Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade acompanhou cinco crianças autistas que utilizaram óleo de cannabis full spectrum rico em canabidiol (CBD) como terapia complementar aos tratamentos que já realizavam.
Os autores relataram melhora em diferentes aspectos clínicos nas cinco crianças acompanhadas. Ao mesmo tempo, características importantes do próprio desenho do estudo impedem que esses resultados sejam interpretados como prova de que o tratamento funcionará da mesma maneira para outras crianças.
Entender essa diferença é justamente o que torna esse estudo interessante.
O próprio título já traz uma informação fundamental para interpretar os resultados: trata-se de uma série de casos. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
O que os pesquisadores quiseram investigar?
O objetivo foi avaliar a resposta terapêutica de cinco pacientes pediátricos autistas que utilizavam óleo de cannabis full spectrum rico em CBD, na concentração de 20 mg/ml, associado ao tratamento medicamentoso convencional.
As crianças eram acompanhadas na Atenção Primária à Saúde e tinham entre 5 e 11 anos. Três eram meninos e duas eram meninas.
O tempo médio de utilização do óleo de cannabis no momento da avaliação foi de 7,4 meses. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Um ponto precisa estar em destaque:
o óleo não estava sendo estudado como substituto de todos os outros tratamentos.
As cinco crianças utilizavam cannabis como parte de uma abordagem complementar, juntamente com outros cuidados e medicamentos. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores conduziram um estudo observacional e descritivo, do tipo série de casos, em uma Unidade de Saúde da Família localizada na região de João Pessoa, na Paraíba.
Foram incluídas cinco crianças diagnosticadas com autismo que utilizavam óleo de cannabis rico em CBD como tratamento complementar.
As informações foram obtidas por meio de prontuários, entrevistas com os responsáveis e instrumentos de avaliação. Entre eles estavam a Childhood Autism Rating Scale (CARS) e elementos da Autism Treatment Evaluation Checklist (ATEC).
Os pesquisadores também utilizaram uma entrevista semiestruturada construída para o estudo, baseada no CARE Checklist e em pontos da ATEC. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Isso permitiu reunir informações sobre a história clínica das crianças, os tratamentos utilizados e as mudanças percebidas ao longo do acompanhamento.
Mas essa metodologia também traz limitações, e os próprios autores reconhecem algumas delas.
Voltaremos a isso mais adiante.
Quem eram as cinco crianças?
A amostra era pequena e heterogênea.
Havia três meninos e duas meninas, entre 5 e 11 anos. De acordo com a classificação utilizada pelos pesquisadores, duas crianças foram classificadas como apresentando autismo grave e três como autismo leve a moderado.
A idade média no diagnóstico foi de 42,6 meses. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
As histórias clínicas também eram diferentes.
Antes da introdução do óleo, as crianças apresentavam combinações distintas de dificuldades relacionadas a sono, hiperatividade, irritabilidade ou agressividade, linguagem, interação social, concentração, alimentação e aspectos sensoriais.
Também utilizavam diferentes medicamentos associados.
Essa diversidade é importante porque mostra que não estamos diante de cinco casos idênticos recebendo exatamente o mesmo tratamento em condições experimentais controladas.
Estamos diante de cinco histórias clínicas reais.
O que aconteceu depois da introdução do óleo de cannabis?
Segundo os autores, todas as cinco crianças apresentaram melhora em pelo menos alguns dos aspectos clínicos acompanhados.
Entre as mudanças relatadas no conjunto dos casos estavam melhora em:
hiperatividade, insônia, irritabilidade, agressividade, comunicação, interação social, concentração e seletividade alimentar.
É importante observar que nem todas as crianças apresentaram melhora exatamente nos mesmos aspectos. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
E o que mostraram as escalas utilizadas?
Um dos elementos interessantes do artigo é que os autores não apresentam apenas descrições narrativas.
Esses resultados são coerentes com a melhora descrita pelos autores.
Mas existe uma diferença essencial entre observar uma mudança depois de uma intervenção e demonstrar que essa intervenção causou a mudança.
É aqui que precisamos falar sobre desenho de pesquisa.
Por que uma série de casos é importante?
Uma série de casos não é um estudo “sem valor”.
Pelo contrário.
Esse tipo de pesquisa pode ser muito útil para documentar experiências clínicas, identificar fenômenos que merecem atenção e gerar novas perguntas científicas.
Imagine que profissionais começam a observar repetidamente determinada mudança após uma intervenção.
Registrar essas experiências de maneira sistemática pode ajudar pesquisadores a formular uma hipótese.
A próxima pergunta passa a ser:
essa mudança continuará aparecendo quando investigarmos um número maior de pessoas e compararmos os resultados de maneira controlada?
É aí que outros desenhos de pesquisa entram em cena.
Mas quais são as limitações deste estudo?
Aqui está provavelmente a parte mais importante para interpretar corretamente os resultados.
O estudo acompanhou apenas cinco crianças.
Além disso, não havia um grupo controle comparável que não recebesse a intervenção.
E existe outra questão particularmente relevante.
Os próprios pesquisadores explicam que o estudo estava sujeito a viés de informação, incluindo memória e resposta dos participantes, porque parte das informações dependia dos relatos.
Também reconhecem viés de seleção.
Segundo os autores, todos os pacientes incluídos apresentaram boas respostas ao uso do óleo de cannabis, impossibilitando uma contraposição comparativa com pacientes que não apresentaram esse tipo de resposta. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Isso muda bastante a maneira como devemos ler os resultados.
Então o estudo prova que o CBD é eficaz para crianças autistas?
Esse estudo, isoladamente, não permite estabelecer essa conclusão para a população de crianças autistas.
O que ele oferece é uma descrição de cinco casos nos quais foram observadas mudanças favoráveis durante o uso complementar de óleo de cannabis rico em CBD.
Essa formulação é muito mais precisa.
Não diminui os resultados encontrados.
Apenas coloca cada resultado no lugar que ele ocupa dentro da construção do conhecimento científico.
O que os autores dizem sobre outras pesquisas?
Na discussão, os autores situam seus resultados dentro de uma literatura mais ampla sobre cannabis rica em CBD e autismo.
Eles mencionam pesquisas anteriores com diferentes desenhos metodológicos, incluindo estudos abertos e ensaios controlados, nas quais foram relatadas mudanças em aspectos como comunicação social, agitação, hiperatividade, concentração e outros domínios.
Entre os trabalhos discutidos está um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo envolvendo 60 crianças de 5 a 11 anos, além de estudos com grupos maiores de crianças e adolescentes. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Mas os próprios autores também fazem uma ressalva importante ao revisar esse cenário:
ainda são necessários estudos mais robustos para comprovar a real eficácia. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Essa é uma mensagem especialmente importante.
A série de casos não existe isoladamente: ela integra uma linha de investigação científica em andamento.
“Full spectrum” e CBD são a mesma coisa?
Não exatamente.
O produto utilizado pelas crianças do estudo era descrito como óleo de cannabis full spectrum rico em CBD.
Isso significa que não estamos falando simplesmente de CBD isolado.
Os autores explicam que a cannabis contém diferentes canabinoides e outras estruturas químicas. Entre os componentes mais conhecidos estão o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC). 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Nos casos relatados, foi utilizada uma formulação com proporção de 20:1 de CBD/THC.
Os pesquisadores destacam a necessidade de cautela com canabinoides na população pediátrica e observam que não existe produto full spectrum aprovado pelo FDA para uso pediátrico, segundo a discussão apresentada no artigo. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Houve efeitos adversos?
Nos cinco casos acompanhados, os autores relatam boa tolerabilidade, sem efeitos colaterais ou eventos adversos importantes durante o período estudado.
O tempo de uso variava entre quatro e dez meses, com média de 7,4 meses. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Isso descreve o que ocorreu nessa pequena amostra e durante esse período de acompanhamento.
Não significa que produtos derivados de cannabis sejam isentos de possíveis efeitos adversos.
Na própria discussão, o artigo cita como possíveis efeitos adversos sonolência, náuseas, vômitos, diarreia e alterações do apetite. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Um ponto que não pode desaparecer: o tratamento era complementar
Existe uma palavra que aparece repetidamente no artigo e precisa acompanhar toda a nossa interpretação:
complementar.
As crianças não simplesmente abandonaram todas as outras intervenções para utilizar o óleo.
Nos cinco casos havia diferentes combinações de medicamentos e acompanhamento terapêutico.
Entre os medicamentos associados estavam risperidona, clorpromazina, lamotrigina e topiramato. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Ao final do trabalho, os próprios autores fazem uma ressalva explícita:
o estudo não propõe o uso indiscriminado do óleo de cannabis em pacientes pediátricos autistas.
Nos casos descritos, o produto foi utilizado de forma complementar à terapêutica já adotada. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Por que esse estudo ainda é relevante?
Porque ciência não avança apenas quando encontramos respostas definitivas.
Ela também avança quando uma observação é documentada de forma que possa gerar novas perguntas.
Esses cinco casos acrescentam informações clínicas sobre crianças que utilizaram uma formulação rica em CBD dentro de um contexto real de assistência à saúde.
Os resultados relatados são suficientemente interessantes para justificar investigação.
Ao mesmo tempo, as limitações metodológicas são suficientemente importantes para impedir conclusões maiores do que os dados permitem.
As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
O que famílias podem levar desta pesquisa?
Talvez a principal mensagem seja justamente a necessidade de separar possibilidade terapêutica de promessa terapêutica.
O estudo descreve resultados favoráveis.
Isso merece atenção científica.
Mas ele não oferece base para transformar uma experiência clínica de cinco crianças em uma recomendação geral.
Também não fornece elementos para que famílias reproduzam por conta própria o tratamento descrito.
Embora o artigo apresente detalhes das doses utilizadas nos casos, essas informações fazem parte da descrição científica do estudo e não devem ser interpretadas como orientação de dose ou prescrição para outras crianças.
Decisões envolvendo medicamentos e produtos derivados de cannabis precisam considerar características individuais, outros medicamentos utilizados, possíveis interações, efeitos adversos e acompanhamento profissional.
Ciência também é saber o tamanho de uma conclusão
Talvez a contribuição mais interessante deste artigo para quem acompanha pesquisas sobre autismo vá além da cannabis.
Ele oferece uma oportunidade de entender como lemos evidências científicas.
Encontrar melhora em cinco pessoas é uma observação.
Documentar cuidadosamente essa melhora transforma a observação em informação científica.
Comparar essa informação com outros estudos ajuda a construir uma hipótese mais consistente.
Testar essa hipótese em pesquisas maiores e controladas aumenta nossa capacidade de avaliar se existe uma relação causal e para quem determinado tratamento pode ser útil.
Cada etapa responde a uma pergunta diferente.
O problema começa quando tentamos fazer uma etapa responder aquilo que somente outra poderia responder.
O que podemos concluir desta leitura?
Nesta série de cinco casos, crianças autistas que utilizaram óleo de cannabis full spectrum rico em CBD como terapia complementar apresentaram, segundo os pesquisadores, melhora em diferentes aspectos clínicos, incluindo hiperatividade, sono, irritabilidade, agressividade, comunicação, interação social, concentração e seletividade alimentar. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
É um resultado que merece ser estudado.
Mas o trabalho tem uma amostra de apenas cinco crianças, não possui grupo controle e apresenta limitações reconhecidas pelos próprios autores, incluindo vieses de informação e seleção. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
Por isso, talvez a maneira mais fiel de resumir este artigo seja:
os cinco casos acrescentam evidências clínicas interessantes à discussão sobre canabinoides e autismo, mas não encerram essa discussão.
Eles ajudam a formular melhor as próximas perguntas.
E, na ciência, saber qual pergunta ainda precisa ser respondida é tão importante quanto reconhecer aquilo que já conseguimos observar.
REFERÊNCIAS
PAULA, Ana Beatriz Medeiros e; ALMEIDA, Igor Bronzeado Cahino Moura de; LEMOS, Luíza Alcântara Pontes de; ALBUQUERQUE, Katy Lísias Gondim Dias de. Acompanhamento clínico de cinco crianças com transtorno do espectro autista que usam óleo de cannabis full spectrum como terapêutica complementar: uma série de casos. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. 2025;20(47):4567. DOI: 10.5712/rbmfc20(47)4567. 4567-Texto do artigo-31785-2939…
— CAROLINE CHROMIEC
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.
— GIORNELLA VITALINO
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis do Instituto TEAproxima.
— KAUÃ RASMUSSEN VALACH
Estudante de Psicologia e estagiário do Instituto TEAproxima, com atuação em comunicação e pesquisa de artigos científicos.














