Por Caroline Chromiec, Instituto TEAproxima
02 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, costuma ser marcado por campanhas, cartazes e discursos. Mas, dentro da comunidade TEA, existe uma urgência que não cabe em slogan: autonomia se constrói com apoio. E apoio não é gentileza. É estrutura. É rede. É prática.
Quando se fala em autonomia, muita gente imagina alguém “dando conta sozinho”. Para o autismo, essa imagem é injusta e perigosa. Autonomia não é um padrão único a ser atingido. Autonomia é o campo do possível que se amplia quando existem recursos, adaptações, comunicação acessível e previsibilidade, e quando a pessoa autista é respeitada como sujeito de desejos, limites e escolhas.
Autonomia não é solidão. Autonomia é suporte que fortalece.
E há uma conversa que precisa ser colocada dentro desse tema com coragem e responsabilidade: violência. Prevenir violência passa pela autonomia, pelo saber perceber sinais de risco, pelo saber se retirar, pelo ter vocabulário e repertório para nomear o que está errado e pelo conseguir pedir ajuda sem medo.
A violência raramente começa no último ato. Ela costuma começar em pequenas corrosões: controle, isolamento, culpabilização, humilhação, manipulação. E, quando a pessoa é uma adolescente autista, alguns fatores podem aumentar vulnerabilidades: literalidade, dificuldade de leitura de intenções, histórico de exclusão, desejo intenso de pertencimento, pouca educação acessível sobre consentimento e limites.
Se a rede não ensina, a violência encontra brechas.
Mas também é verdade que autonomia só se sustenta quando existe segurança emocional. E segurança emocional tem nome: autoestima, validação, pertencimento e apoio. Uma menina, autista ou não, dificilmente enfrenta uma situação de risco quando está convencida de que “não vai ser acreditada”, quando foi ensinada a aceitar desconforto como normal, quando vive sozinha demais a própria dor.
Por isso, para o Instituto TEAproxima, o 02/04 precisa ser mais do que conscientização. Precisa ser compromisso coletivo: escola, saúde, políticas públicas e sociedade assumindo que a proteção não pode recair somente sobre a família, e muito menos sobre a menina.
É nessa direção que o Instituto TEAproxima vem desenvolvendo o UpTEA Safe: uma frente educativa voltada à prevenção e proteção, com foco inicial em adolescentes autistas, especialmente meninas. A proposta é construir, em ambiente seguro, habilidades que não são “detalhes”, mas pilares de proteção: reconhecer situações de risco, exercitar o “não”, diferenciar insistência de cuidado, mapear rotas de ajuda e treinar pedido de apoio com segurança.
Conscientizar é essencial. Mas não basta. Prevenir exige ferramenta, treino e rede.
Neste Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o Instituto TEAproxima reafirma sua tríade como prática: aproximar famílias da informação de qualidade, conectar redes e projetos que sustentem a comunidade TEA, e transformar a conversa pública em ações que protejam vidas.
Porque autonomia se constrói com apoio.
E proteção também.
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Apoiar é sustentar informação, formação, rede e prevenção real.
Instituto TEAproxima
Aproximar. Conectar. Transformar.
Referências
ONU / Dia Mundial de Conscientização do Autismo (2 de abril)
Organização das Nações Unidas. World Autism Awareness Day (2 April). (Página oficial do dia).
Lei Berenice Piana — Autismo como deficiência para todos os efeitos legais (Brasil)
BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. §2º: “A pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais.”
Violência contra mulheres — dado global “1 em 3” (OMS/WHO)
World Health Organization. Violence against women (Fact sheet). Atualização 25 mar. 2024.
Violência contra mulheres — perspectiva e dados (ONU Mulheres)
UN Women. Violence against women – Facts everyone should know.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.