Carta do Instituto TEAproxima às mulheres da comunidade TEA

Por Caroline Chromiec, Instituto TEAproxima

Para as mulheres autistas.
Para as mães atípicas.
Para as avós, irmãs, tias, madrinhas, cuidadoras.
Para as profissionais que sustentam o cuidado com as próprias mãos.
Para as que seguram uma rotina com uma mão e um medo com a outra.

Hoje, no Dia da Mulher, o Instituto TEAproxima escolhe escrever como quem chega perto. Sem palco. Sem frase pronta. Como quem sabe que, por trás de cada “tudo bem”, existe um mundo inteiro que ninguém vê.

A gente vê vocês.

Vemos a mulher autista que passou anos tentando caber, sorrindo no lugar certo, respondendo “sim” quando o corpo pedia silêncio. Vemos a mulher que aprendeu a mascarar para ser aceita, e pagou o preço com a própria saúde mental. Vemos a mulher que só descobriu o diagnóstico tarde, e teve que refazer a própria história com uma palavra nova. Vemos a coragem de continuar, mesmo quando ninguém entende a fadiga de existir.

Vemos as mães atípicas. As que não dormem por inteiro há anos. As que sabem a cor do remédio, a dose, o horário, a farmácia, o que falta, o que muda, o que piora, o que melhora. As que vivem com o coração em estado de alerta. As que têm um amor gigantesco, mas não têm rede suficiente. As que carregam o mundo nas costas e ainda pedem desculpas por “não dar conta”.

Vemos também as mulheres que amparam as mães: avós que seguram a casa, irmãs que viram rede, tias que chegam com comida e silêncio bom, amigas que não somem depois do “qualquer coisa me chama”. E vemos as profissionais que estudam além do mínimo, que entendem que a vida não cabe na teoria, que acolhem sem infantilizar, que orientam sem culpar, que não usam o diagnóstico como sentença, usam como mapa.

Hoje, a nossa carta não é para dizer “vocês são fortes”.
Porque vocês já ouviram isso demais e, às vezes, “força” vira uma forma bonita de abandono.
O que a gente quer dizer é outra coisa: vocês têm direito ao cuidado.

Direito de não ser exemplo o tempo todo.
Direito de não ser “a que aguenta”.
Direito de não resolver tudo sozinha.
Direito de descansar sem culpa.
Direito de pedir ajuda sem precisar cair primeiro.
Direito de existir além do papel que o mundo colocou em você.

A maternidade atípica, muitas vezes, faz a mulher desaparecer. E isso é um perigo silencioso. Porque quando a mulher some, não some só uma pessoa, some a base de uma casa inteira. E ninguém deveria precisar adoecer para ser levada a sério.

A mulher autista, muitas vezes, também desaparece, mas de outro jeito. Ela some na estatística, no diagnóstico tardio, na leitura errada do comportamento, na cobrança social, no “você é difícil”, no “você é sensível demais”, no “você não se esforça”. E, quando ela some, o mundo perde uma forma inteira de inteligência, de precisão, de ética, de sensibilidade. O mundo perde potência.

Nós, do Instituto TEAproxima, não escrevemos esta carta para fazer você “aguentar mais um pouco”.
Escrevemos para te lembrar que a sua vida importa agora.

E que apoio de verdade não é discurso bonito. Apoio de verdade é prática. É alguém que chega e diz:

“Eu fico com ele para você tomar banho.”
“Eu vou com você nessa consulta.”
“Eu posso te ouvir sem julgar.”
“Eu posso te ajudar com uma ligação.”
“Eu posso te dar duas horas de respiro.”

Rede é isso: atitude pequena que salva dias inteiros.

Se hoje você está no limite, não transforme isso em vergonha. Transforme em sinal. Sinal de que você está carregando mais do que deveria. Sinal de que você precisa de um pouco de mundo segurando junto.

E se hoje você está respirando melhor, talvez seja o dia de virar rede para outra mulher. Não com frases prontas — com presença.

O Instituto TEAproxima nasceu para aproximar, conectar e transformar. Mas, acima de tudo, nasceu para que ninguém caminhe sozinho dentro do autismo. E quando falamos “ninguém”, estamos falando também de você, mulher.

Que este Dia da Mulher seja menos sobre flores e mais sobre estrutura. Menos sobre aplauso e mais sobre políticas públicas, acesso, informação, proteção e cuidado real. Menos sobre pedestal e mais sobre chão firme.

E, se você quiser caminhar com a gente, este é o nosso convite: seja parte da nossa rede. Apoiar o Instituto TEAproxima é sustentar informação de qualidade, formação, incidência, projetos e acolhimento para a comunidade TEA, com especial atenção às mulheres que seguram essa história todos os dias.

Para todas as mulheres que seguram o mundo com uma mão e a vida com a outra:
nós vemos vocês.
E seguimos aqui.

 

Instituto TEAproxima
Aproximar. Conectar. Transformar.

 

Referência

CHROMIEC SALLUM, Caroline. Carta do Instituto TEAproxima às mulheres da comunidade TEA. Carta autoral. Instituto TEAproxima. Curitiba, 08 de março de 2026.

 

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.