Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
Quando a ONU instituiu o Dia Mundial da Justiça Social, celebrado em 20 de fevereiro, o objetivo foi chamar a atenção para algo maior do que datas e discursos: a necessidade de combater pobreza, desigualdade e exclusão, promovendo sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis. Fala-se em trabalho digno, proteção social, acesso a direitos básicos. Mas, muitas vezes, uma pergunta fica em aberto: onde entram as pessoas autistas nessa conversa?
Estima-se que cerca de 1 em cada 100 crianças no mundo esteja no espectro autista. Por trás desse número, há realidades muito diferentes, crianças não oralizadas, adolescentes em transição para a vida adulta, mulheres autistas diagnosticadas tardiamente, famílias que revezam noites em claro e agendas cheias de terapias. A justiça social, para essa comunidade, não é uma ideia abstrata; é a diferença entre ter acesso a diagnóstico e intervenção no tempo certo… ou passar anos ouvindo que “é só fase”. Entre ter escola acessível… ou ser educado em casa por falta de acolhimento. Entre conseguir trabalhar com apoio… ou viver à margem, mesmo com potencial.
Pesquisas mostram que pessoas autistas, em especial adultos, enfrentam taxas elevadas de discriminação, dificuldades para acessar serviços de saúde e barreiras de participação social, fatores que se conectam diretamente a piores indicadores de bem-estar e saúde mental. Entre crianças com deficiência, grupo que inclui muitas crianças autistas, os dados globais seguem alarmantes: em países de baixa e média renda, metade delas ainda está fora da escola, ou enfrenta uma escolarização marcada por exclusão e baixa qualidade.
Quando a escola não acolhe, o serviço público não dá conta, o plano de saúde nega cobertura e o trabalho não flexibiliza, não estamos falando apenas de “desafios individuais”. Estamos diante de um problema de justiça social.
No cotidiano, essas desigualdades aparecem em pequenas e grandes cenas: a mãe que precisa abandonar o emprego porque não há quem cuide do filho autista em tempo integral; a família que se endivida para pagar terapias que deveriam estar garantidas; o estudante que é “aceito” na escola, mas não participa de fato, porque os apoios não chegam; o adulto autista que encontra portas fechadas na entrevista de emprego, não por falta de competência, mas por falta de compreensão e adaptações razoáveis.
A agenda global de justiça social fala em não deixar ninguém para trás. No caso do autismo, isso significa, concretamente:
– garantir acesso a diagnóstico, intervenção precoce e terapias baseadas em evidências, com financiamento adequado;
– tornar a escola comum um espaço de participação real, com planejamento, apoios visíveis e metas compartilhadas;
– pensar políticas de renda, trabalho e proteção social que considerem a sobrecarga de famílias atípicas e a diversidade de perfis autistas;
– incluir pessoas autistas nas decisões que dizem respeito às suas próprias vidas, reconhecendo-as como sujeitos de direitos, não apenas como alvo de cuidado.
Não há justiça social verdadeira quando famílias inteiras precisam escolher entre pagar terapia ou pagar aluguel.
Não há justiça social quando a escola diz “se adapte” a quem mais precisa de adaptação.
É nesse cruzamento entre justiça social e neurodiversidade que o Instituto TEAproxima se coloca. O nosso trabalho diário nasce da experiência de famílias atípicas e da escuta de pessoas autistas que enfrentam, na vida real, aquilo que tantas vezes aparece só em relatórios: falta de acesso, invisibilidade, burocracia, despreparo das redes.
Quando falamos em Aproximar, Conectar e Transformar, estamos falando de justiça social em movimento:
Aproximar famílias de informação de qualidade, traduzindo leis, pesquisas e direitos em linguagem acessível;
Conectar profissionais, pesquisadores, escolas, empresas e órgãos públicos em projetos que ampliem, de fato, as possibilidades de cuidado e participação;
Transformar relatos individuais de sofrimento em pauta pública, incidência, campanhas, formações e projetos que mudem práticas e estruturas.
No Dia Mundial da Justiça Social, não queremos apenas repetir conceitos. Queremos fazer uma pergunta que incomoda, e que, justamente por isso, pode mover:
Se a justiça social é o compromisso de não deixar ninguém para trás,
quem ainda está ficando de fora quando você pensa em autismo, educação, saúde e trabalho?
Talvez a resposta inclua famílias atípicas da sua rua, estudantes autistas da sua escola, colaboradores neurodivergentes da sua equipe, mães exaustas do seu círculo de convivência. Reconhecer isso é um primeiro passo. O seguinte é agir: cobrar políticas, rever práticas, oferecer apoio concreto, abrir espaço de fala e de decisão.
No Instituto TEAproxima, seguimos fazendo a nossa parte: aproximar, conectar e transformar, para que justiça social não seja apenas uma data no calendário, mas um caminho compartilhado com a comunidade TEA, todos os dias.
Referências
Organização das Nações Unidas (ONU) – Dia Mundial da Justiça Social
Comunicações da ONU destacando que o dia 20 de fevereiro tem como foco combater pobreza, exclusão, desemprego e desigualdade, promovendo sociedades mais justas e inclusivas.
Organização Mundial da Saúde (OMS) / WHO – Autismo: dados globais
Ficha informativa e sínteses recentes apontam que o autismo afeta cerca de 1 em cada 100 crianças no mundo, número usado amplamente em documentos internacionais e revisões de literatura.
Relatórios sobre discriminação e bem-estar de pessoas autistas
Sínteses de pesquisas mostram que adultos autistas enfrentam taxas maiores de discriminação, dificuldades de acesso a serviços e piores indicadores de saúde mental quando comparados à população geral, cenário discutido em reportagens e revisões recentes sobre autismo e saúde mental.
UNICEF – Crianças com deficiência e exclusão educacional
Análises baseadas no relatório Seen, Counted, Included indicam que crianças com deficiência têm probabilidade cerca de 49% maior de nunca frequentar a escola e enfrentam múltiplas barreiras de acesso à educação, bem-estar e participação social.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.