Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
Quando pensamos em ciência, ainda é comum vir à cabeça a imagem de um homem de jaleco, cercado de fórmulas e equipamentos. Mas, desde 2015, a ONU instituiu o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, justamente para questionar essa imagem e lembrar ao mundo que a ciência também tem voz feminina, e precisa, cada vez mais, considerar as meninas e mulheres autistas nessa conversa.
Dados da UNESCO mostram que, em média, apenas uma em cada três pessoas pesquisadoras no mundo é mulher, e que elas seguem sub-representadas em áreas como engenharia, tecnologia e computação. Ao mesmo tempo, estudos vêm apontando que meninas e mulheres autistas ainda são subdiagnosticadas e pouco enxergadas, tanto nos serviços de saúde quanto na própria produção científica sobre o autismo.
Quando a ciência não enxerga meninas autistas, ela falha em explicar o mundo para todos.
Em outras palavras: enquanto lutamos para que mais meninas ocupem a ciência, ainda deixamos muitas meninas autistas fora do radar, ou chegando tardiamente ao diagnóstico e ao cuidado.
Neurodiversidade, gênero e pesquisa: quem está decidindo o que importa?
Durante muito tempo, a maior parte dos estudos em autismo foi feita com base em meninos e homens, o que ajudou a construir um “modelo padrão” de autista que não contempla a pluralidade real do espectro. Hoje sabemos que meninas autistas tendem a mascarar mais, camuflar dificuldades, desenvolver estratégias para “passar despercebidas”, o que atrasa diagnóstico e acesso ao suporte adequado.
Quando mulheres e meninas ficam sub-representadas na ciência e na amostra dos estudos sobre autismo, perdemos duas vezes: perdemos pesquisadoras que poderiam fazer perguntas diferentes, e perdemos participantes que poderiam mostrar jeitos diferentes de ser autista.
Não basta ter mais mulheres na ciência. Precisamos de uma ciência que olhe, de verdade, para mulheres e meninas neurodivergentes.
É aqui que a pauta do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência se encontra com a agenda da neurodiversidade.
O que isso tem a ver com a comunidade TEA?
Para famílias atípicas, ciência não é algo distante, “da universidade pra lá”. Ciência aparece quando uma intervenção funciona de verdade; quando um medicamento é bem indicado; quando uma tecnologia assistiva permite que uma criança se comunique; quando um software de realidade virtual ajuda adolescentes autistas a reconhecer situações de risco.
É nesse cruzamento entre evidência científica e vida real que o Instituto TEAproxima se coloca: aproximando famílias da informação de qualidade; conectando profissionais, pesquisadores e instituições; e ajudando a transformar achados científicos em práticas concretas de cuidado, educação e proteção.
Projetos como o UpTEA Safe, por exemplo, nascem exatamente desse encontro entre tecnologia, pesquisa e proteção de adolescentes autistas, muitas delas meninas que precisam aprender, com segurança, a reconhecer situações de violência e abuso, usando recursos como a realidade virtual, em parceria com instituições tecnológicas e de fomento.
Por trás de cada protocolo, cada software e cada intervenção baseada em evidências, sempre existe alguém que pesquisou, testou, errou, corrigiu e persistiu. Essa pessoa também pode ser uma mulher.
A interseccionalidade: quando quem pesquisa também é quem sempre foi invisibilizada
Falar de mulheres e meninas na ciência, no contexto do autismo, é falar também de interseccionalidade: gênero, classe, raça, território, neurodivergência. Quem tem acesso a bolsas? Quem consegue permanecer na universidade? Quem pode transformar a própria vivência em objeto de estudo sem ser deslegitimada o tempo todo?
Foi dessa camada mais profunda que veio a fala da psicóloga e mulher autista Lara Frasson, (CRP-08/33121).
“A interseccionalidade. A ciência é uma evolução constante, e sem dúvidas é imprescindível quando falamos de autismo, mas ela também é dirigida por quem tem recurso, acesso e privilégio e isso quase sempre se traduz a homens, brancos, heteros e de classe alta. Quando nós conseguimos ocupar espaços de pesquisa, trazemos perspectivas únicas pois na grande maioria das vezes representamos aquelas minorias que são invisibilizadas, trazemos pesquisas interseccionalizadas, com grupos de estudo que abrangem também essas realidades. Eu faço pesquisa, busco inovações tecnológicas e suas validações não apenas por mim, mas por todas as meninas e mulheres autistas que foram como eu invalidadas, invisibilizadas. Ainda enfrento diariamente o capacitismo por estar aqui, mas seguirei produzindo evidências para que daqui dezenas de anos as novas meninas não precisem passar pelo que nós passamos e eu espero poder ver cada vez mais mulheres produzindo ciência sim e mudando essa cultura capacitista, misógina, racista e xenofóbica que infelizmente existe dentro da Academia. Sou grata por todas aquela que vieram antes de mim, aquelas que compartilham essa luta comigo e aquelas que sonham em mudar o mundo também.”
Na fala de Lara, a ciência deixa de ser apenas um lugar onde se produz conhecimento “sobre” alguém, e passa a ser um espaço de disputa viva: quem decide o que merece virar tema de pesquisa? Quem escolhe quais vidas são consideradas dados relevantes? Quem sustenta, ou rompe, uma cultura acadêmica ainda fortemente capacitista, misógina, racista e excludente?
Quando uma mulher autista entra na pesquisa, ela não leva só um currículo. Ela leva mundos que nunca foram ouvidos dentro da academia.
Ao trazer a interseccionalidade para o centro, Lara Frasson nos lembra que não estamos falando apenas de abrir portas, mas de discutir quem desenhou essas portas, em qual andar e para quais corpos. Meninas autistas pobres, meninas negras, meninas periféricas, meninas que não performam o “jeito certo” de falar em público ou de se portar em sala de aula seguem, muitas vezes, fora das estatísticas, fora das bolsas, fora dos laboratórios.
Meninas autistas na ciência: possibilidade real, não metáfora bonita
Quando falamos em mulheres e meninas na ciência no contexto do autismo, não estamos apenas projetando um futuro ideal. Estamos falando de meninas autistas que hoje estão na escola comum e podem se apaixonar por laboratório, robótica, matemática, biologia, escrita científica. De jovens autistas que poderiam estar em cursos técnicos e universidades, mas esbarram em barreiras sensoriais, comunicacionais e atitudinais. De mães atípicas que, mesmo sem cargo acadêmico, produzem conhecimento cotidiano sobre comportamento, regulação, comunicação e direitos. De profissionais mulheres (fonoaudiólogas, psicólogas, terapeutas ocupacionais, professoras, médicas, pesquisadoras) que constroem, na prática, pontes entre evidência e cuidado.
O que essas trajetórias têm em comum? Elas mostram que autonomia se constrói com apoio, inclusive quando falamos de carreira científica.
Nenhuma menina autista deveria abandonar o sonho de ser cientista por falta de acessibilidade, acolhimento ou visão.
O compromisso do Instituto TEAproxima
No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o Instituto TEAproxima reforça seu compromisso em valorizar e divulgar o trabalho de mulheres que pesquisam autismo, neurodiversidade, educação inclusiva, comunicação alternativa, direitos humanos e tecnologias assistivas; aproximar famílias de informação baseada em evidências, traduzida em linguagem acessível, sensível e aplicável ao cotidiano; conectar projetos que envolvam ciência, cultura e inclusão, como formações, ações culturais, softwares educativos, estudos sobre violência e proteção; e transformar relatos de vida em pauta pública, ajudando universidades, escolas, serviços de saúde e empresas a repensarem suas práticas à luz do que a ciência já sabe.
Mais do que celebrar datas, queremos ajudar a construir um cenário em que meninas autistas tenham acesso a diagnóstico, apoio e estudo; mulheres neurodivergentes possam estar em laboratórios, equipes de pesquisa e grupos de decisão; e mães atípicas sejam reconhecidas não só como cuidadoras, mas também como produtoras de conhecimento sobre o autismo.
Quando uma menina autista entra em um laboratório e é acolhida como parte da equipe, não é só a vida dela que muda. A ciência inteira ganha um novo jeito de fazer perguntas.
Lara Frasson é psicóloga, autista, Diretora de Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade do Instituto TEAproxima. Supervisora ABA QASP-S e coordenadora ABA CABABR. É especialista em habilidades terapêuticas na clínica comportamental e também em clínica analítico-comportamental infantil, bem como em ABA. Educadora parental certificada pela PDA, Lara é mestranda em Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e supervisora da Comissão de Desenvolvimento Atípico da ABPMC (Associação Brasileira de Ciências do Comportamento).
Referências:
UNESCO – Women in Science: dados globais sobre a participação feminina na pesquisa, incluindo o índice aproximado de 1/3 de mulheres entre pesquisadores.
ONU – International Day of Women and Girls in Science: resoluções e comunicações oficiais sobre o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência e a necessidade de reduzir desigualdades de gênero na ciência e tecnologia.
Hull, L. et al. (2017). “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders. Estudo que descreve como mulheres autistas frequentemente mascaram sinais de autismo, contribuindo para diagnósticos tardios ou equivocados.
Produções de divulgação científica, coletivos de mulheres autistas e entidades ligadas ao autismo que discutem a intersecção entre gênero, neurodiversidade e acesso à ciência, reforçando o papel das meninas e mulheres autistas tanto como sujeitas de pesquisa quanto como produtoras de conhecimento.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.