Autismo nas universidades: quando o regimento vira violência e não proteção

Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima

Nos últimos dias, um relato chegou até nós e ficou ecoando na cabeça e no coração. Uma pessoa autista, estudante de pós-graduação, vivendo uma cena que, infelizmente, poderia ser a de muitos outros autistas nas universidades brasileiras.

Desde então, venho me perguntando qual é a forma mais responsável de tratar esse assunto: como olhar para esse tipo de situação com respeito, promover reflexão e, ao mesmo tempo, marcar o posicionamento do Instituto TEAproxima.

Como Instituto, não temos receio de trazer pautas urgentes e desafiadoras para discussão. Nossa missão é aproximar, conectar e transformar, inclusive quando isso significa colocar um holofote sobre o capacitismo institucional.

Nesta matéria, olhamos para três dimensões que se cruzam: as experiências e dificuldades de estudantes autistas; a forma como o regimento e as regras muitas vezes são aplicadas contra o aluno; e o que as universidades precisam rever em termos de acessibilidade, adaptação e postura.

 

Quando a pós-graduação vira gatilho, não conquista

No papel, a cena é simples: uma estudante de pós-graduação, uma disciplina obrigatória, presença mínima exigida, avaliações, artigos, prazos, exposição pública, despreparo para lidar com neurodivergência.

Na vida real, a história ganha camadas.

Há situações na vida acadêmica que não revelam apenas falhas pontuais, mas estruturas inteiras que ainda não sabem  ou não se dispõem  a acolher pessoas neurodivergentes. Quando uma estudante autista, já atravessando um semestre exigente e lidando com suas próprias necessidades de comunicação e regulação, busca diálogo, cuidado e análise justa de sua situação, espera-se que encontre abertura, escuta e respeito.

O que ela encontrou, porém, foi o contrário: um sistema rígido, incapaz de reconhecer contextos, insensível às próprias normativas que dizem adotar, e guiado por uma lógica que trata a diferença como inconveniente. O capacitismo não aparece apenas em ofensas diretas; ele se manifesta quando a escuta é negada, quando a dúvida é tratada como afronta, quando adaptações previstas por lei ou por documentos institucionais são ignoradas, quando a autoridade se coloca acima do cuidado.

O despreparo institucional se revela justamente nos momentos em que mais deveria haver responsabilidade. Em vez de oferecer orientação, cria constrangimento; em vez de construir uma ponte de comunicação, ergue barreiras; em vez de considerar a singularidade, impõe decisões prontas e irredutíveis. A pessoa que busca ajuda é tratada como problema. A estudante que precisa de acolhimento é silenciada. A subjetividade é invisibilizada em nome da conveniência administrativa.

Não foi uma situação isolada — foi um retrato de como, muitas vezes, as universidades ainda falham em compreender que inclusão não é um adorno discursivo, mas um compromisso diário. E quando esse compromisso não existe, quem paga o preço é sempre quem já está vulnerável.

Esse é o verdadeiro problema, não a dificuldade de frequência, nem o conteúdo de uma disciplina, mas o modo como o capacitismo se estrutura silenciosamente nas relações de poder, transformando espaços que deveriam ser formativos em ambientes de violência simbólica e emocional.

Esse episódio concreto dialoga com muitas falas que ouvimos diariamente na comunidade autista: salas cheias, barulhentas, com luz forte, tornam o simples ato de estar em aula um desafio sensorial; orientações orais rápidas, pouco registradas por escrito, se perdem no meio da sobrecarga; múltiplas plataformas e prazos desencontrados exigem uma organização  executiva que nem sempre é reconhecida como dificuldade legítima; trabalhos em grupo e apresentações orais demandam códigos sociais implícitos, sem apoio ou adaptação; e, quando a pessoa autista finalmente pede apoio ou flexibilização, esse pedido muitas vezes é lido como “drama”, “falta de esforço” ou “problema do aluno”.

Quando, depois de tudo isso, o regimento é interpretado da forma mais rígida possível, sem olhar para laudo, sem considerar documentos institucionais que permitem abonos, sem dialogar com o núcleo de acessibilidade, a mensagem que a pessoa autista recebe é:

“SE VOCÊ NÃO CONSEGUE FUNCIONAR DENTRO DESSE MOLDE, O PROBLEMA É SEU.
NÓS VAMOS SEGUIR IGUAIS.”

 

Regimento: ferramenta de justiça ou arma contra o aluno?

Toda universidade tem um regimento, estatutos, normas internas. Eles existem, em teoria, para organizar a vida acadêmica, dar previsibilidade.

Mas a forma como esses documentos são lidos e aplicados faz toda a diferença.

No caso relatado à nossa equipe, o regimento e as regras foram acionados para justificar a reprovação automática por frequência, mesmo diante de um contexto específico; para transformar uma questão discutível em um “comunicado fechado”, sem escuta efetiva da estudante; e para sustentar uma postura de autoridade que silencia, em vez de construir uma solução possível. O que não se vê, nesse movimento, é diálogo com setores responsáveis por acessibilidade, consideração das necessidades e do perfil de uma estudante autista e cuidado com o formato da comunicação, evitando exposição pública e constrangimento.

Regimento não é, por si só, o vilão.

Ele se torna problema quando é usado como escudo para negar adaptações que são, na verdade, parte do direito à educação em igualdade de condições.

Ser estudante autista numa universidade, especialmente na pós-graduação, envolve desafios que a letra do regimento não enxerga. Há aspectos sensoriais, como barulho, luz intensa, fluxo constante de pessoas e ambientes que não oferecem espaços de descompressão; desafios cognitivos e de organização, com excesso de informações simultâneas, mudanças de prazos e uso de várias plataformas sem coordenação; barreiras comunicacionais, marcadas pela dificuldade em intervir em falas, em se posicionar em reuniões e pelo medo de ser visto como “desrespeitoso” ao insistir em um direito; e dimensões emocionais profundas, atravessadas por histórico de sofrimento escolar, experiências anteriores de humilhação e um medo constante de “errar o tom” ou “ser demais”.

Quando uma situação de conflito é conduzida sem levar nada disso em conta, a universidade reforça uma lógica excludente:

“AQUI SÓ CABE QUEM AGUENTA TUDO EM SILÊNCIO.”

 

O que as universidades precisam rever

Não estamos falando de uma universidade específica ou de um curso isolado.

Falamos de um padrão que se repete em muitos lugares e que precisa ser enfrentado como questão de política institucional, não apenas de relações pessoais.

Alguns caminhos que julgamos inadiáveis passam, primeiro, por protocolos claros para estudantes autistas: as instituições de ensino superior precisam registrar, de forma acessível, como esses estudantes podem solicitar apoio e adaptações, quais setores são responsáveis por acompanhar cada caso e como conflitos envolvendo avaliação, frequência e conduta devem ser tratados, garantindo escuta qualificada, registro e possibilidade de recurso. Também é urgente que os regimentos incluam, e não apenas punam: os documentos internos devem mencionar explicitamente estudantes com deficiência, incluindo autistas, listar tipos de adaptações razoáveis possíveis – como ajuste de frequência em casos específicos, formatos alternativos de avaliação e uso de tecnologias assistivas – e orientar docentes a interpretar regras à luz da legislação de inclusão e dos direitos das pessoas com deficiência, e não apenas de tradições acadêmicas. Além disso, a formação de docentes e coordenações não pode ser opcional: é fundamental oferecer formação continuada em autismo, neurodivergência e acessibilidade, criar espaços em que docentes possam ouvir diretamente pessoas autistas, compreendendo suas experiências, e discutir ética nas relações professor–aluno, especialmente em situações de conflito. Por fim, é preciso colocar a ética no centro da forma de comunicar decisões: evitar anunciar reprovações ou decisões delicadas em reuniões coletivas, garantir que o estudante possa estar acompanhado por alguém de confiança, respeitar o direito de fala do aluno, sobretudo quando ele tenta explicar um contexto, e registrar por escrito decisões e justificativas, abrindo espaço real para revisão e recurso.

 

O posicionamento do Instituto TEAproxima

Como Instituto que nasce da experiência das famílias atípicas, mas também escuta cada vez mais pessoas autistas adultas e estudantes, entendemos que autistas têm direito de chegar, permanecer e concluir seus estudos com dignidade; que regimentos e normas internas não podem ser usados para silenciar quem já está em posição de vulnerabilidade; e que episódios de exposição, humilhação e negação de adaptações não são “dramas individuais”, mas sinais de estruturas que precisam ser revistas. Não citamos nomes, cursos nem instituições aqui, por respeito à pessoa que nos confiou seu relato, mas escolhemos, sim, transformar essa experiência em reflexão pública, porque sabemos que ela não é um caso isolado.

 

Uma pergunta que fica

Se a universidade é o lugar onde se produz conhecimento, se fala de ética, direitos e políticas públicas, o que ela ensina quando trata um estudante autista dessa forma? Do nosso lugar, como Instituto TEAproxima, a resposta que ecoa é:

ENQUANTO O REGIMENTO FOR MAIS RÁPIDO PARA PUNIR DO QUE PARA INCLUIR, A PALAVRA “ACESSIBILIDADE” SEGUIRÁ SENDO PROMESSA, NÃO PRÁTICA.

Seguimos comprometidos em aproximar, conectar e transformar, inclusive aproximar esse debate de quem tem poder de decisão dentro das universidades.

Que este texto seja, ao mesmo tempo, um abraço em quem já passou por algo semelhante e um convite à responsabilidade para quem ocupa cadeiras de gestão e docência. Porque a pergunta que importa, no fim, é simples e profunda:

Que tipo de universidade queremos construir: uma que reprova em voz alta e escuta em silêncio, ou uma que esteja disposta a aprender com as pessoas autistas que já estão dentro dela?

 

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

Referências – Artigos acadêmicos e revisões (Brasil)

Pisetta, M. A. A. M.; Marques, T. M. (2025). Inclusão de estudantes universitários autistas.
Revista Educação e Pesquisa (USP). Discute práticas inclusivas no ensino superior a partir de autorrelatos de universitários autistas, com foco em acessibilidade e desafios institucionais.

Melo, S. C.; colaboradores (2023). Acesso e permanência de pessoas com autismo no ensino superior.
Analisa, a partir de produções científicas, os principais obstáculos de ingresso e permanência de pessoas com TEA no ensino superior brasileiro.

Aguilar, C. P. C.; Rauli, P. (2020). Desafios da inclusão: a invisibilidade das pessoas com TEA no ensino superior.
Pesquisa com universitários autistas, trazendo do ponto de vista deles as dificuldades de adaptação, barreiras institucionais e falta de protocolos.

Tin, N. M. K. (2024). O estudante com Transtorno do Espectro Autista no ensino superior.
Discute inclusão de autistas no ensino superior, as principais barreiras e as estratégias institucionais disponíveis.

Souza Huf, V. B. (2023). Os desafios e superações do TEA no ensino superior.
Aborda dificuldades e redes de apoio que influenciam a permanência de estudantes autistas, destacando a importância do acolhimento institucional.

Contiero, L. et al. (2024). Acolhimento e permanência do discente com autismo no ensino superior.
Discute mecanismos pedagógicos e processos institucionais que facilitam (ou dificultam) a permanência de alunos com TEA.

Melo, Y. G. F. F. (2024). Dificuldades enfrentadas por estudantes autistas no ensino superior.
Estudo que mapeia, a partir de relatos, as principais dificuldades acadêmicas e de aprendizagem de estudantes com TEA.

Artigos e notas técnicas do Instituto Inclusão Brasil sobre “Estudantes autistas na universidade: direitos legais, desafios e acessibilidade”.
Abordam direitos, legislação, deveres das instituições de ensino superior e exemplos de adaptações possíveis.