Dia Internacional da Pessoa com Deficiência: quando a nossa comunidade TEA se reconhece também nessa luta

Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima

Dia 3 de dezembro, o mundo marca o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, uma data instituída pela ONU em 1992 para promover os direitos, a dignidade e a participação plena de pessoas com deficiência em todas as dimensões da vida.

Todos os anos, a data traz um tema, mas o núcleo da mensagem permanece:
não basta “lembrar” que a deficiência existe, é preciso mudar estruturas, práticas e mentalidades para que ninguém fique de fora. Em 2025, por exemplo, o foco global está em como tornar nossas sociedades verdadeiramente inclusivas, com financiamento e políticas que cheguem na vida real de quem vive com deficiência.

Quando olhamos para a nossa comunidade TEA, essa conversa ganha um contorno muito particular.

Autismo e deficiência: por que essa conversa importa?

Durante muito tempo, o autismo foi apresentado, para muitas famílias, como “um jeito diferente de ser”, uma condição que não precisava “de rótulos”. Em outros momentos, foi associado apenas à ideia de “transtorno”, como se falássemos de algo que precisasse ser consertado.

Entre esses extremos, muita gente foi ficando sem linguagem:
nem se reconhecia na palavra deficiência, nem via seus direitos garantidos na prática.

Mas, quando pensamos com calma, a pergunta que importa é outra:

O mundo foi desenhado considerando o jeito autista de perceber, sentir e se comunicar?

Se a resposta é “não” e, na maior parte das vezes, ainda é, então estamos, sim, falando de deficiência no sentido mais concreto da palavra:
não de um defeito da pessoa, mas de uma distância entre as necessidades de alguém e aquilo que o ambiente oferece como padrão.

Reconhecer o autismo como parte do universo da deficiência não diminui ninguém.
Pelo contrário: abre portas para que pessoas autistas tenham acesso a:

  • adaptações razoáveis na escola e no trabalho;

  • respeito aos limites sensoriais (luz, som, toque, rotina);

  • formas alternativas de comunicação;

  • apoio para participação social e política.

É sair da pergunta “ele(a) dá conta?”
e entrar na pergunta “o que falta ao ambiente para que essa pessoa possa participar de verdade?”

Capacitismo é a discriminação baseada na ideia de que corpos, mentes e modos de funcionar considerados “padrão” valem mais do que os outros. E ele passa por nós, comunidade TEA, todos os dias.

Ele aparece quando:

  • uma criança autista é chamada de “sem educação” porque não consegue ficar sentada e em silêncio num ambiente que a sobrecarrega;

  • um adolescente autista é visto como “estranho” ou “perigoso” por reagir a estímulos intensos que ninguém mais está notando;

  • uma pessoa autista adulta perde oportunidades de estudo ou trabalho porque “não se encaixa” nos modelos rígidos de entrevista, jornada ou interação social.

O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência nos lembra que isso não é história individual.
É estrutura. É sistema. É uma sociedade que ainda foi construída sem considerar, de verdade, a diversidade neurológica.

O Instituto TEAproxima nasceu para acolher, instruir e direcionar quem vive o autismo na pele. Mas, se queremos falar de inclusão com honestidade, precisamos reconhecer que:

  • pessoas autistas são parte do grupo de pessoas com deficiência;

  • isso coloca nossa comunidade no centro da luta por acessibilidade, participação e direitos;

  • não dá para falar de autismo sem falar de políticas públicas, desenho de serviços, formação de profissionais e combate ao capacitismo.

Na prática, isso significa:

  • incentivar profissionais de saúde, educação e empresas a olharem para o autismo não como um problema a ser “resolvido”, mas como uma forma legítima de existir que precisa de apoio;
  • abrir espaço para que pessoas autistas falem por si, ocupem lugares de liderança, pesquisa, trabalho e decisão.

Não precisamos esperar novas leis para começar algumas mudanças:

  • Se você é profissional
    Pergunte: “Como eu posso adaptar este atendimento para você?”
    Ofereça tempo, linguagem clara, opções de comunicação, pausas sensoriais.

  • Se você é gestor(a) de escola, serviço ou empresa
    Olhe para quem está ficando de fora. Existem autistas aqui? O ambiente permite que estejam? O que precisaria mudar?

  • Se você é pessoa autista ou faz parte da comunidade TEA
    Você tem direito a pedir adaptações, a dizer que algo é demais, a comunicar do seu jeito.
    Reconhecer-se como pessoa com deficiência pode ser dolorido em um primeiro momento, mas também pode ser libertador: não é sobre “fraqueza”, é sobre direito.

3 de dezembro: não um dia “sobre os outros”, mas também sobre nós

O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência não é uma data distante da nossa realidade:
é um espelho que devolve perguntas incômodas, mas necessárias:

  • Que espaços ainda não consideram o jeito autista de existir?

  • Que violências sutis continuamos chamando de “normal”?

  • Que direitos ainda estamos tratando como favor?

Como Instituto TEAproxima, queremos seguir construindo pontes entre famílias, pessoas autistas, profissionais, empresas e poder público.
Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não pede que ninguém deixe de ser quem é para participar, ela se reorganiza para que todas as formas de ser caibam com dignidade.

Neste 3 de dezembro, o nosso compromisso se renova:
seguir nomeando o capacitismo, ampliando a voz da comunidade TEA e lembrando, todos os dias, que diferença é potência, desde que os direitos sejam garantidos.

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

Referências

  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU).

  • CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA (CDPD).
    Adotada pela Assembleia Geral da ONU em 2006.
    Estabelece que deficiência é o resultado da interação entre pessoas com impedimentos e barreiras atitudinais/ambientais, base conceitual para a ideia de “o mundo precisa se adaptar”.
  • COMITÊ SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA (CRPD).
    Observações gerais e documentos interpretativos da Convenção, que reforçam o modelo social da deficiência e o direito a ajustes razoáveis em educação, trabalho e participação social.