Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, em 25 de novembro, nasceu da memória de três irmãs assassinadas por enfrentarem uma ditadura e se tornou símbolo da luta mundial contra todas as formas de violência de gênero.
Hoje, a data é também um lembrete duro:
segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), 1 em 3 mulheres e meninas a partir de 15 anos nas Américas já sofreu violência física ou sexual, e 1 em 4 foi agredida por um parceiro íntimo pelo menos uma vez na vida.
É tanta gente que, muitas vezes, os números parecem abstratos.
Mas eles ganham um peso ainda maior quando olhamos para um grupo quase sempre invisível nessas estatísticas: meninas e mulheres autistas.
Quando a violência encontra o autismo
Pesquisas recentes mostram um cenário alarmante:
mulheres autistas têm risco até três vezes maior de sofrer violência sexual do que mulheres não autistas. Em alguns estudos, quase 90% das participantes autistas relataram ter vivido algum tipo de violência sexual ou de gênero ao longo da vida.
No Brasil, especialistas já vêm alertando para essa vulnerabilidade ampliada entre meninas e mulheres autistas.
Isso não é “acidente estatístico”.
É resultado de uma combinação de fatores:
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Subdiagnóstico e camuflagem: muitas meninas só descobrem o diagnóstico na adolescência ou vida adulta, depois de anos tentando “se encaixar” à custa da própria saúde mental.
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Dificuldades na leitura social: sinais de manipulação, ironias, ameaças veladas e jogos de poder podem passar despercebidos – principalmente quando quem agride é alguém próximo.
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Comunicação e literalidade: frases como “isso é nosso segredo” ou “se você contar, ninguém vai acreditar” podem ter um peso diferente para quem tende a confiar demais ou interpretar falas ao pé da letra.
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Falta de educação sexual acessível: muitas meninas e mulheres autistas nunca receberam informações claras, adaptadas ao seu modo de compreender o mundo, sobre consentimento, limites, desejo e segurança.
O resultado?
Violências que não são reconhecidas como tal.
Relações abusivas que se disfarçam de “atenção” ou “amor”.
Situações de risco que se repetem porque ninguém ensinou, na prática, o direito de dizer não e o caminho de pedir ajuda.
O que a OPAS nos lembra sobre eliminar a violência
A OPAS reforça que a violência contra as mulheres é um obstáculo direto ao desenvolvimento, afetando saúde física, mental, oportunidades econômicas e participação social de até metade das mulheres da região.
Por isso, o enfrentamento passa por quatro pilares:
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Evidência: produzir e usar dados de qualidade.
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Prevenção: trabalhar antes da violência acontecer.
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Serviços: garantir resposta qualificada nos sistemas de saúde e proteção.
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Planos e políticas nacionais: transformar tudo isso em compromisso de Estado.
Se meninas e mulheres autistas não aparecem claramente nos dados, nas ações de prevenção, nos protocolos de atendimento e nas políticas públicas, ficamos com uma lacuna perigosa: elas continuam entre as mais vulneráveis e as menos protegidas.
Por que o Instituto TEAproxima fala disso
O Instituto TEAproxima nasceu para acolher, instruir e direcionar quem vive o autismo no dia a dia. Mas essa missão não se limita a falar de intervenção precoce, inclusão escolar ou diagnóstico.
Quando olhamos para o cenário de violência de gênero, uma pergunta nos atravessa:
quem está preparando meninas e mulheres autistas para reconhecer risco, nomear a violência e pedir ajuda em segurança?
Foi a partir dessa inquietação, e de muitas conversas com especialistas e meninas autistas, que surgiu uma das nossas frentes atuais de trabalho:
🧩 o desenvolvimento do UpTEA Safe, um programa educativo pioneiro, com foco inicial em adolescentes autistas, pensado para treinar, em ambiente seguro, habilidades de:
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reconhecer sinais de perigo;
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identificar situações que cruzam limites;
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exercitar o “não” com segurança;
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ensaiar como pedir ajuda.
O UpTEA Safe ainda está em desenvolvimento e não substitui, em hipótese alguma,
redes formais de proteção, acompanhamento clínico, jurídico ou psicossocial.
Mas ele traduz algo que acreditamos profundamente:
conscientizar é essencial, mas não basta.
Meninas e mulheres autistas precisam de treino, ferramentas e ambientes preparados.
O que já pode mudar hoje
Enquanto soluções tecnológicas e programas educativos são desenvolvidos, há atitudes que podem começar agora, em qualquer serviço ou território:
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Na saúde: criar fluxos de atendimento que considerem comunicação alternativa, tempo extra de escuta e linguagem clara para meninas e mulheres autistas.
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Na educação: incluir temas como consentimento, limites, relacionamentos e segurança em materiais acessíveis para estudantes autistas.
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Nos sistemas de justiça e proteção: capacitar equipes para ouvir relatos de violência feitos por pessoas autistas, respeitando seu tempo, seus modos de expressão e suas necessidades sensoriais.
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Na tecnologia e inovação: pensar soluções que não tratem o autismo como detalhe, mas como um eixo central de design inclusivo.
Eliminar a violência contra as mulheres nunca será tarefa simples.
Mas ignorar as experiências de meninas e mulheres autistas torna essa tarefa impossível.
Neste 25 de novembro, o convite do Instituto TEAproxima é claro:
🧡 que possamos nominar a violência;
🧩 incluir o autismo nas estratégias de prevenção;
💙 e construir caminhos em que meninas e mulheres autistas possam viver, amar, estudar, trabalhar e existir sem medo.
Referências
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ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Violência contra as mulheres. Washington, DC: OPAS/OMS. Disponível em: https://www.paho.org/pt/topics/violence-against-women Organização Pan-Americana da Saúde
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PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION. Violence against women. Washington, DC: PAHO/WHO. Disponível em: https://www.paho.org/en/topics/violence-against-women Organização Pan-Americana da Saúde
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ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE; ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Devastadoramente generalizada: 1 em cada 3 mulheres em todo o mundo sofre violência. Comunicado de imprensa, 9 mar. 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/9-3-2021-devastadoramente-generalizada-1-em-cada-3-mulheres-em-todo-mundo-sofre-violencia Organização Pan-Americana da Saúde
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ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Prevenção da violência sexual e da violência pelo parceiro íntimo contra a mulher: ação e produção de evidência. Washington, DC: OPAS; 2013. Disponível em: https://iris.paho.org/handle/10665.2/3661 Iris
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UNITED NATIONS. International Day for the Elimination of Violence against Women – Background. Disponível em: https://www.un.org/en/observances/ending-violence-against-women-day/background Nações Unidas
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UNESCO. International Day for the Elimination of Violence against Women. Disponível em: https://www.unesco.org/en/days/elimination-violence-against-women UNESCO
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CAZALIS, F. et al. Evidence That Nine Autistic Women Out of Ten Have Been Victims of Sexual Violence. Frontiers in Behavioral Neuroscience, v. 16, 852203, 2022. Disponível em: Frontiers | Evidence That Nine Autistic Women Out of Ten Have Been Victims of Sexual Violence PMC
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FRONTIERS. Almost 90% of autistic women report experiencing sexual violence, often on multiple occasions. Frontiers in Behavioral Neuroscience News, 27 abr. 2022. Disponível em: https://www.frontiersin.org/news/2022/04/27/frontiers-behavioral-neuroscience-sexual-abuse-women-with-autism-widespread Frontiers
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The Autism Research Institute . Sexual Victimization in Autism. Autism Research Institute. Disponível em: https://autism.org/sexual-victimization-in-autism/ Autism Research Institute
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UNFPA. Five things you didn’t know about disability and sexual violence. United Nations Population Fund, 2018. Disponível em: https://esaro.unfpa.org/en/news/five-things-you-didnt-know-about-disability-and-sexual-violence UNFPA East and Southern Africa
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UNIVERSITY OF TECHNOLOGY SYDNEY (UTS). Research priorities for autistic girls, women and gender-diverse people. 2022. Disponível em: https://www.uts.edu.au/autistic-women-and-girls-research-priorities uts.edu.au
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.