Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
A alimentação é um dos maiores desafios enfrentados por famílias de crianças autistas. Para muitas, cada refeição parece uma batalha: um prato rejeitado, uma crise diante de um novo alimento, um cardápio restrito a pouquíssimos itens. Mas é fundamental compreender que a seletividade alimentar no Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é “frescura”, e sim um fenômeno real, estudado pela ciência, que exige paciência, criatividade e acompanhamento profissional.
O que diz a ciência sobre seletividade alimentar no TEA
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Entre 40% e 80% das crianças com TEA apresentam dietas restritas e com baixo valor nutricional, o que pode afetar seu crescimento e bem‑estar geral.
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Estudos mostram que seletividade alimentar está presente entre 46% a 89% dos casos de TEA, relacionada a rejeição de alimentos, repertório limitado e preferência por poucos itens.
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A sensibilidade sensorial agrava o quadro: textura (69%), aparência (58%), sabor (45%), cheiro (36%) e temperatura (22%) são principais fatores de seletividade.
Os impactos nutritivos — Micronutrientes e Texturas
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A seletividade pode levar a deficiências de cálcio, ferro, vitaminas D, B6, B12, folato, zinco, entre outros e comprometer a saúde imunológica e cognitiva.
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Mais de 70% dos autistas apresentam seletividade alimentar, afetando também habilidades motoras na mastigação.
Abordagem multidisciplinar — Um olhar unido e acolhedor
O enfrentamento requer o trabalho conjunto de nutricionista, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e médico, criando estratégias personalizadas e sensíveis às singularidades de cada criança.
Essa abordagem integrada garante avanços sustentáveis e respeitosos, considerando tanto o bem-estar físico quanto emocional da criança.
Possibilidades concretas — Nutrientes, texturas e adaptação
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Proteínas como carnes moídas, ovos bem amaciados ou leguminosas em formato “cremoso”.
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Carboidratos com texturas variáveis, desde purês até pães macios e leves.
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Vegetais incorporados discretamente, em sucos, sopas, molhos ou misturados em pratos amados.
A comida pode se transformar de barreira em conexão, com criatividade, paciência e afeto.
Um convite à esperança: a voz da Nutricionista
Convidamos Jéssica Santana, especialista em Nutrição infantil com abordagem em IA, Autismo, Seletividade alimentar a compartilhar sua sabedoria com famílias:
“O papel do nutricionista no TEA: acolhimento, estratégia e transformação
No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a alimentação vai muito além de nutrir: ela está profundamente ligada ao comportamento, ao bem-estar e à qualidade de vida da criança e de toda a família.
A seletividade alimentar, tão presente nessa realidade, exige um olhar sensível e individualizado. O nutricionista é o profissional que não apenas avalia os nutrientes que faltam ou sobram, mas que entende a relação da criança com o alimento, seus sentidos, suas experiências e até mesmo os impactos emocionais do momento da refeição.
O acompanhamento nutricional oferece estratégias práticas, adaptadas à rotina da família, e fortalece o vínculo entre cuidadores e criança, trazendo mais leveza para os momentos de refeição. Com isso, conseguimos promover avanços nutricionais, prevenir deficiências, apoiar o desenvolvimento e, principalmente, reduzir a ansiedade e a sobrecarga que muitas famílias enfrentam.
Ser nutricionista é ser parceiro nessa jornada. É acreditar que cada pequena conquista à mesa é um grande passo rumo à autonomia, ao crescimento saudável e à inclusão.
No Dia da Nutricionista, celebramos não apenas uma profissão, mas a oportunidade de impactar vidas através da alimentação, especialmente quando se trata de crianças que nos ensinam todos os dias a olhar o mundo de forma diferente”.
Abraçando o caminho juntos
Famílias, não desanimem: cada passo, por menor que pareça, é uma vitória. Uma mordida nova, um prato aceito, um momento tranquilo à mesa, tudo isso é evolução.
O Instituto TEAproxima acredita que alimentação é cuidado, acolhimento e dignidade. Caminhar lado a lado com uma equipe multidisciplinar é abrir portas para saúde, qualidade de vida e inclusão verdadeira.
Referências
Gomes, R. F. (2021). Seletividade alimentar em crianças com autismo: prevalência e fatores associados. UNIFESP.
Martins, E. P., & Silva, A. A. (2020). Seletividade alimentar em crianças com TEA: desafios e estratégias nutricionais. RBONE.