Por Caroline Chromiec
Instituto TEAproxima
Entre os dias 07, 08 e 09 de novembro de 2025, a Zona Oeste do Rio de Janeiro foi palco de algo que vai muito além de um evento: o Congresso AUTISMO 360º: Um olhar além do diagnóstico, organizado pela empresa #INCLUIR.
Mais do que palestras, ele entregou pertencimento. Mais do que conteúdo, entregou representatividade autista viva, concreta, incontornável.
Por trás do congresso, está a força de uma família que conhece de perto o que é viver a inclusão na prática:
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Julia Predes, pessoa autista/TDAH, mãe atípica, idealizadora e fundadora da #INCLUIR e do congresso. Aos 24 anos, já impacta mais de 400 famílias atípicas na Zona Oeste do Rio de Janeiro, criando espaços de lazer, acolhimento e capacitação.
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Catia Predes, cofundadora da #INCLUIR, web designer e gestora empresarial com formação em marketing, que administra e sustenta, nos bastidores, a estrutura que permite que tudo isso aconteça.
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E nomes como Fabinho Fernandes, primeiro tetraplégico do mundo a saltar de paraquedas sozinho, diretor do Instituto Novo Ser e idealizador do projeto Praia Para Todos, maior iniciativa de acessibilidade à praia do Brasil, com mais de 40 mil atendimentos.
Esse trio, ao lado de uma rede de profissionais e ativistas, mostrou que inclusão não é conceito: é decisão diária, é desenho de evento, é escolha de formato, é postura diante do outro.
Quando o congresso deixa de ser palco e vira lugar de ser
Em muitos eventos científicos sobre autismo, o cenário é conhecido:
palco formal, palestrantes engessados, tempo cronometrado, fotos obrigatórias, público contido.
A pessoa autista, quando aparece, é muitas vezes objeto de estudo, não sujeito de fala.
No AUTISMO 360º, algo diferente aconteceu.
Havia palestrantes autistas descalços, com itens de conforto à vista, como uma cobra de almofada no palco.
Havia pessoas que se sentavam no chão quando precisavam, que andavam pelo espaço, que ajustavam o ambiente ao próprio corpo, e não o contrário.
Havia crianças subindo no palco, circulando, existindo.
E, talvez o mais importante: ninguém julgando por isso.
Não era “falta de organização”. Era coerência.
Um congresso sobre autismo que se recusa a apagar as características autistas em nome da estética, da formalidade ou do “protocolo”.
“Foi lindo ver a representatividade autista tomando forma viva.”
A fala de Lara Frasson ajuda a traduzir o que foi vivido ali:
“Foi lindo ver a representatividade autista tomando forma viva, autêntica, sem disfarces.
Ver autistas palestrando com brilho nos olhos, descalços, itens de conforto, sentados no chão quando precisavam, andando pelo espaço livremente e, ainda assim, entregando conhecimento de qualidade.
Foi emocionante ver a união entre a vivência e a ciência, o respeito verdadeiro, o aprendizado acontecendo de forma humana e segura. Um congresso onde ninguém precisou se mascarar pra ser ouvido e onde o conhecimento não veio só dos livros, mas também da experiência de quem vive o que estuda.
E eu confesso que estar ali, no meio disso tudo, foi um privilégio, uma honra poder ver e viver esse momento com vocês, pois cada detalhe foi construído com muito esforço, amor e propósito.
E o resultado foi algo raro, um evento onde o pertencimento era visível, onde a empatia era regra e onde a ciência tinha rosto, corpo e coração.
Que os próximos congressos sejam assim: mais humanos, mais acessíveis, mais reais. Porque nós, pessoas autistas, também fazemos ciência.”
Essa fala não é apenas um depoimento emocionado.
Ela é um manifesto sobre o futuro dos eventos que tratam de autismo.
Quando a vivência encontra a ciência
O que o AUTISMO 360º materializa é uma mudança de eixo:
o conhecimento deixa de vir apenas de quem estuda e passa a incluir, com igual peso, quem vive aquilo todos os dias.
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A ciência ganha rosto.
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O conteúdo ganha corpo.
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A fala técnica ganha coração.
Ver pessoas autistas no palco, em seus próprios termos, não é “detalhe estético”.
É a diferença entre falar sobre inclusão e fazer inclusão.
Um congresso que permite:
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estímulos sensoriais ajustados,
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corpos em movimento,
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pausas necessárias,
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crianças presentes e não escondidas,
é um congresso que entende que não existe segurança emocional sem liberdade de ser.
Um modelo para os próximos eventos sobre autismo
A pergunta que fica depois de um evento como esse é inevitável:
por que isso ainda é exceção?
Se falamos tanto em inclusão, por que ainda são poucos os congressos onde:
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o ambiente respeita as necessidades sensoriais de quem participa;
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a presença de crianças autistas é bem-vinda, não tolerada;
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as pessoas autistas têm espaço de protagonismo, e não só de “relato de caso”;
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a máscara social pode, finalmente, ser deixada de lado?
O AUTISMO 360º nos lembra que:
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Acessibilidade não é luxo, é condição mínima.
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Pertencimento não é detalhe, é objetivo central.
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Representatividade não é “plus”, é base de legitimidade.
Porque pessoas autistas também fazem ciência
Quando uma pessoa autista sobe ao palco, descalça, com uma almofada na mão e um conteúdo robusto na mente, algo poderoso acontece:
a imagem do “especialista” se amplia.
A ciência deixa de ser um espaço onde a pessoa autista é apenas “objeto” de estudo e passa a ser um lugar onde ela é também autora, pesquisadora, referência.
Esse é o ponto em que a inclusão deixa de ser discurso e se torna estrutura.
Que o exemplo do Congresso AUTISMO 360º ecoe por muitos outros espaços: acadêmicos, políticos, clínicos e comunitários.
Que os próximos congressos:
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tirem os sapatos,
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abram espaço para o movimento,
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acolham o inesperado,
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escutem quem vive na pele aquilo que os livros tentam descrever.
Porque, como bem disse Lara Frasson,
“nós, pessoas autistas, também fazemos ciência.” 💙
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.