Professor, quem aproxima também ensina

Por Caroline Chromiec | Instituto TEAproxima

No Dia dos Professores, o Instituto TEAproxima reconhece o papel dos educadores na construção de uma escola mais inclusiva e reforça que ensinar na diversidade exige formação, apoio e compromisso coletivo.

15 de outubro de 2026

Ensinar é reconhecer que existem diferentes formas de aprender. É compreender que cada estudante chega à escola com sua própria história, suas características, potencialidades e necessidades. É também perceber que, para algumas crianças e adolescentes, participar das atividades escolares exige condições que nem sempre estão disponíveis.

Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, o Instituto TEAproxima presta uma homenagem aos profissionais que fazem da educação um caminho para o conhecimento, a autonomia e o pertencimento. Mas a data também nos convida a olhar para uma questão que precisa estar presente nas discussões sobre inclusão:

Como garantir que os professores tenham condições reais de ensinar em salas de aula cada vez mais diversas?

Para estudantes autistas e suas famílias, a escola representa muito mais do que um espaço de aprendizagem. É também um ambiente de convivência, desenvolvimento e construção de vínculos. E é nesse cotidiano que muitas famílias encontram acolhimento, mas também enfrentam barreiras que dificultam a participação de seus filhos.

Mais estudantes autistas nas escolas. E o suporte?

A presença de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas escolas brasileiras cresceu significativamente nos últimos anos.

Mas existe uma diferença fundamental entre estar matriculado e ter asseguradas as condições necessárias para aprender.

De acordo com levantamento apresentado pelo Nexo Políticas Públicas, 24,5% das escolas declararam ofertar Atendimento Educacional Especializado (AEE), enquanto 40,8% dos estudantes público-alvo da educação especial estavam matriculados em instituições sem registro dessa oferta.

Esses dados reforçam uma preocupação: o avanço das matrículas precisa ser acompanhado por investimentos em formação docente, acessibilidade, recursos pedagógicos e redes de apoio.

Não basta abrir as portas da escola. É necessário garantir condições para que os estudantes possam participar, aprender e desenvolver suas potencialidades.

O professor não pode enfrentar a inclusão sozinho

Quando falamos em educação inclusiva, é comum direcionarmos aos professores a expectativa de encontrar soluções para todas as necessidades que surgem em sala de aula.

Mas será que estamos oferecendo a esses profissionais a formação, os recursos e o apoio necessários?

A pesquisa Educação inclusiva e formação de professores: entre desafios e possibilidades, publicada em fevereiro de 2026 na Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem (REBENA), discute justamente essa realidade.

O estudo, desenvolvido por Rosamaria Freire da Silva e outras pesquisadoras, destaca que a formação inicial e continuada é essencial para fortalecer as práticas pedagógicas inclusivas. Também aponta a importância da colaboração entre profissionais da educação e da construção de ambientes escolares que respeitem as diferenças.

As autoras reforçam que a inclusão exige articulação entre políticas públicas, condições materiais, formação docente e Atendimento Educacional Especializado.

Na prática, isso significa reconhecer que a responsabilidade pela inclusão não pode ficar concentrada em um único profissional.

Essa realidade também aparece em pesquisas sobre o cotidiano docente. Um estudo com professores de Ciências, publicado nos Cadernos do Aplicação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresenta relatos sobre as dificuldades de desenvolver atividades adaptadas em turmas numerosas, especialmente quando não há profissionais de apoio ou suporte especializado.

São desafios que precisam ser compreendidos para além da atuação individual dos professores.

A inclusão não depende apenas da disposição de ensinar. Depende também das condições oferecidas para que o ensino aconteça.

Uma escola inclusiva precisa reconhecer diferentes formas de aprender

Não existe uma única maneira de aprender, comunicar-se ou demonstrar conhecimento.

Alguns estudantes precisam de instruções mais objetivas. Outros se beneficiam de recursos visuais, atividades organizadas em etapas, adaptações sensoriais ou diferentes formas de avaliação.

Reconhecer essas necessidades não significa reduzir expectativas sobre a capacidade dos estudantes. Significa compreender que oferecer condições adequadas pode ampliar as possibilidades de aprendizagem e participação.

É nesse contexto que abordagens como o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) ganham relevância, ao incentivar a diversificação das estratégias de ensino, dos recursos e das formas de participação.

A formação continuada também ocupa um lugar central nessa transformação.

Mais do que cursos pontuais, os professores precisam de oportunidades permanentes para estudar, compartilhar experiências, refletir sobre suas práticas e construir soluções conectadas à realidade das escolas.

O artigo publicado na REBENA destaca ainda a importância de integrar inovação pedagógica, competências socioemocionais e ética profissional à formação docente.

Outro ponto indispensável é o trabalho em rede.

Professores, profissionais do Atendimento Educacional Especializado, equipes pedagógicas, gestores, famílias e demais profissionais envolvidos precisam atuar de maneira articulada.

Quando existe diálogo e corresponsabilidade, torna-se possível identificar barreiras, planejar estratégias e construir ambientes mais acessíveis.

Incluir também é transformar o ambiente

Uma reflexão importante para a educação inclusiva é compreender que nem todas as dificuldades de participação estão exclusivamente nas características do estudante.

O ambiente também pode facilitar ou dificultar a aprendizagem.

Uma atividade apresentada de uma única maneira, instruções pouco claras, excesso de estímulos sensoriais ou ausência de recursos de acessibilidade podem criar barreiras que comprometem a participação de diferentes estudantes.

Por isso, falar sobre inclusão também significa olhar para a organização da escola, para as metodologias de ensino, para a comunicação e para as relações estabelecidas no cotidiano.

Pessoas autistas podem apresentar diferentes características e necessidades de suporte, que precisam ser reconhecidas e respeitadas. Ao mesmo tempo, a escola deve avaliar quais condições podem ser modificadas para favorecer a participação.

Uma escola inclusiva não é aquela que espera que todos aprendam da mesma maneira, mas aquela que cria caminhos para que todos possam aprender e participar.

Essa transformação não acontece de forma isolada. Exige planejamento, investimento, formação e compromisso institucional.

Aproximar para transformar

No Instituto TEAproxima, acreditamos que a inclusão se fortalece quando o conhecimento encontra a prática e quando diferentes pessoas e instituições se conectam em torno de um propósito comum.

Aproximar professores, famílias, pesquisadores, profissionais e organizações é parte desse caminho.

A educação inclusiva precisa ser construída com escuta, informação qualificada, respeito às diferenças e ações que produzam mudanças reais.

Neste Dia dos Professores, nosso reconhecimento vai para quem ensina, aprende, pesquisa, compartilha experiências e busca construir uma escola em que cada estudante seja reconhecido em suas potencialidades e necessidades.

Também reafirmamos que valorizar o professor significa oferecer condições para que ele desenvolva seu trabalho com qualidade, segurança e apoio.

Porque a inclusão não pode depender de esforços individuais. Ela precisa fazer parte da cultura escolar e das políticas educacionais.

REFERÊNCIAS
O Globo (2026). Em meio à expansão de alunos com autismo, pais e escolas vivem tensões sobre acolhimento.
Instituto Rodrigo Mendes. Panorama da Educação Especial 2025.
Nexo Políticas Públicas (2026). Autismo no Brasil: do reconhecimento de direitos ao desafio da implementação.
Silva, Rosamaria Freire da et al. (2026). Educação inclusiva e formação de professores: entre desafios e possibilidades. Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem, v. 14, p. 459–478.

Cadernos do Aplicação/UFRGS. Estudo sobre práticas docentes e inclusão de estudantes com deficiência.

 

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis do Instituto TEAproxima.