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Autismo, neurodiversidade e estigma: o que muda quando deixamos de olhar apenas para os déficits?
Um estudo publicado na revista Psicologia Escolar e Educacional propõe uma reflexão sobre a maneira como o autismo é compreendido pela ciência, pela escola e pela sociedade, e sobre como essas concepções podem contribuir tanto para a inclusão quanto para a manutenção do estigma.
Leitura acessível do artigo científico pelo Instituto TEAproxima
Durante muito tempo, grande parte da discussão sobre o autismo esteve concentrada na identificação de déficits, dificuldades e características que diferenciavam pessoas autistas daquilo que socialmente se convencionou considerar “normal”.
O artigo “Autismo, neurodiversidade e estigma: perspectivas políticas e de inclusão” nos convida a ampliar esse olhar.
As pesquisadoras discutem como o movimento da neurodiversidade passou a questionar a separação rígida entre aquilo que seria considerado “normal” e “anormal” e a compreender características do autismo também como parte da identidade e da diversidade humana. Ao mesmo tempo, o trabalho não ignora que pessoas autistas podem apresentar dificuldades e diferentes necessidades de apoio.
Por que falar sobre “normalidade” é importante?
Uma das partes mais interessantes do artigo está antes mesmo da discussão sobre autismo.
As autoras recuperam historicamente a própria ideia de “normalidade” e mostram como características mais frequentes na população passaram, ao longo do tempo, a ser associadas ao que seria ideal ou esperado.
Isso importa porque aquilo que uma sociedade estabelece como “normal” influencia a maneira como enxergamos quem se comporta, aprende, se comunica ou percebe o ambiente de maneira diferente.
E essa diferença pode deixar de ser apenas uma característica para se transformar em motivo de exclusão.
Essa pergunta não elimina a necessidade de intervenções. Ela muda o ponto de partida delas.
Neurodiversidade: afinal, do que estamos falando?
O movimento da neurodiversidade surgiu como contraponto à divisão entre funcionamento “normal” e “patológico”. No caso do autismo, essa perspectiva considera suas particularidades como características que também fazem parte da identidade da pessoa.
O conceito de neurodiversidade foi associado ao trabalho de Judy Singer, no final da década de 1990, e posteriormente passou a abranger outras condições neurológicas e do neurodesenvolvimento.
Aqui existe uma diferença importante.
Respeitar a neurodiversidade não significa negar a ciência.
O próprio artigo apresenta uma perspectiva que considera as bases neurobiológicas e comportamentais do autismo, mas questiona uma leitura exclusivamente centrada em déficits.
Uma perspectiva não precisa apagar a outra.
Quando a diferença encontra o estigma
O artigo também nos leva para uma questão mais profunda: o problema nem sempre está apenas nas características individuais de uma pessoa.
Está também na maneira como a sociedade reage a elas.
As autoras discutem o estigma como um fenômeno construído social e culturalmente. Falta de convivência, desconhecimento e crenças equivocadas podem contribuir para a manutenção de práticas estigmatizantes.
No autismo, isso pode acontecer quando determinados comportamentos são interpretados sem que se compreenda sua função ou o modo particular como aquela pessoa experimenta o ambiente.
O artigo cita, por exemplo, relatos de pessoas autistas mostrando que indivíduos não autistas podem não compreender comportamentos repetitivos utilizados como forma de autorregulação diante de dificuldades sensoriais.
Conhecimento pode diminuir o estigma, mas importa que conhecimento estamos oferecendo
Esse é outro ponto muito forte.
As autoras discutem pesquisas indicando que maior conhecimento sobre o autismo pode estar relacionado à redução do estigma. Também apresentam um estudo no qual um treinamento desenvolvido com participação de pessoas autistas aumentou o conhecimento e reduziu o estigma entre universitários.
Mas existe um alerta.
Informação incorreta ou distorcida também pode causar danos, especialmente porque, para muitas pessoas que não convivem com alguém autista, a mídia é uma das principais fontes de informação sobre o TEA.
E quando olhamos para a nossa realidade?
Trazer essa discussão para perto também significa compreender quantas pessoas fazem parte dessa realidade em nosso próprio território.
Segundo o Censo Demográfico 2022, o Paraná tinha 132.604 pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), sendo 24.998 em Curitiba.
Quando olhamos especificamente para a educação, os números ajudam a dimensionar outro aspecto dessa realidade. Dados divulgados pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná em 2026 indicam que a rede estadual reúne 17.441 estudantes com TEA e 71.287 estudantes classificados na categoria de transtornos funcionais específicos, que inclui condições como dislexia e TDAH.
Contexto local | Os dados apresentados neste quadro não fazem parte do artigo científico analisado. Foram acrescentados pelo Instituto TEAproxima para contextualizar a discussão na realidade do Paraná. Links institucionais | o Censo Demográfico 2022 — IBGE e os dados de Educação Especial da Secretaria da Educação do Paraná.
E existe um espaço em que essa discussão se torna particularmente importante: a escola.
E o que tudo isso tem a ver com a escola?
Muito.
O artigo defende que uma inclusão consistente depende do conhecimento das particularidades de cada estudante, considerando potencialidades, dificuldades e também diferentes maneiras de processar estímulos, comunicar-se e relacionar-se com o ambiente.
Isso muda uma pergunta fundamental dentro da escola.
Em vez de pensar somente:
“Como fazemos esse estudante acompanhar o que já existe?”
podemos também perguntar:
“O que este ambiente precisa modificar para que esse estudante consiga participar e aprender?”
Nas considerações finais, as pesquisadoras defendem justamente que a escola deve se adequar às demandas dos estudantes, combater a discriminação e garantir educação efetiva, além de apontarem a importância da formação de professores sobre autismo.
Quem deveria participar da produção de conhecimento sobre autismo?
Talvez esteja aqui uma das mensagens mais importantes do estudo.
As autoras defendem maior participação de pessoas autistas e de seus familiares nas pesquisas relacionadas a elas. O artigo cita trabalhos que propõem reconhecer adultos autistas como especialistas importantes sobre sua própria experiência.
Isso não significa substituir pesquisadores, profissionais ou método científico pela experiência individual.
Significa reconhecer que produzir conhecimento sobre uma população sem escutar essa população cria pontos cegos.
O que podemos levar deste estudo?
O artigo não propõe que dificuldades sejam ignoradas. Também não defende que todas as pessoas autistas tenham as mesmas experiências.
A reflexão é outra.
Precisamos avançar de uma visão exclusivamente orientada pela ideia de déficit e normalização para uma compreensão capaz de considerar dificuldades, habilidades, necessidades de suporte, identidade, ambiente e participação social.
Nas considerações finais, as autoras defendem justamente que modelos focados na “cura” sejam repensados em favor de abordagens que considerem facilidades, dificuldades e habilidades de cada pessoa autista.
O olhar do Instituto TEAproxima
Talvez uma das maiores contribuições desse estudo esteja em nos lembrar de que inclusão não começa quando uma pessoa autista aprende a parecer mais próxima daquilo que a sociedade considera esperado.
Ela começa quando somos capazes de conhecer aquela pessoa suficientemente para compreender como ela se comunica, aprende, percebe, regula-se, participa e estabelece relações com o mundo.
Ciência é indispensável.
Apoio é indispensável.
Intervenções podem ser indispensáveis.
Mas respeito, escuta e participação também precisam fazer parte dessa construção.
Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não deveria perguntar apenas quanto uma pessoa consegue se adaptar a ela.
Também deveria estar disposta a perguntar quanto ela própria está preparada para mudar.
Sobre o artigo científico
Título: Autismo, neurodiversidade e estigma: perspectivas políticas e de inclusão
Autoras: Ana Gabriela Rocha Araujo, Mônia Aparecida da Silva e Regina Basso Zanon
Periódico: Psicologia Escolar e Educacional
Volume: 27
Ano: 2023
DOI: 10.1590/2175-35392023-247367
Importante: esta publicação do Instituto TEAproxima é uma leitura acessível e editorial do estudo científico, produzida para ampliar o acesso ao conhecimento. Ela não substitui a leitura integral do artigo nem orientação individualizada de profissionais.
REFERÊNCIAS
Censo Demográfico 2022 — IBGE e os dados de Educação Especial da Secretaria da Educação do Paraná
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.
— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis do Instituto TEAproxima.
— Kauã Rasmussen Valach
Estudante de Psicologia e estagiário do Instituto TEAproxima, com atuação em comunicação e pesquisa de artigos científicos.








