Por Caroline Chromiec | Instituto TEAproxima
No mês Mundial de Prevenção do Suicídio, o Instituto TEAproxima propõe ampliar a conversa para além da crise: reconhecer diferentes formas de comunicar sofrimento, construir pertencimento e compreender que prevenção também começa nos ambientes em que uma pessoa vive, aprende e se relaciona.
Nem todo pedido de ajuda chega em forma de pedido.
Às vezes, ele chega no silêncio, no afastamento, na mudança de comportamento, na exaustão que ninguém percebe ou naquela sensação profunda de não pertencer.
Neste setembro, mês Mundial de Prevenção do Suicídio, talvez uma das reflexões mais importantes não esteja apenas em perguntar se uma pessoa consegue pedir ajuda. Precisamos também olhar para o outro lado dessa relação: o quanto nós estamos preparados para perceber, acolher e escutar quando o sofrimento não consegue ser traduzido em palavras?
Quando essa conversa encontra o autismo, ela precisa ganhar ainda mais atenção.
O que os estudos estão nos mostrando
Falar sobre saúde mental de pessoas autistas não é criar uma associação entre autismo e suicídio. É reconhecer evidências que indicam a existência de vulnerabilidades que precisam ser compreendidas para que possamos construir estratégias de cuidado e prevenção mais adequadas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 analisou a mortalidade por suicídio entre pessoas autistas e encontrou um risco significativamente maior em comparação à população não autista. Os autores estimaram um risco relativo de aproximadamente 2,85, ou seja, quase três vezes maior. Estudo publicado em Psychiatry Research
Quando olhamos especificamente para crianças e adolescentes, outro dado merece nossa atenção. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na Clinical Psychology Review, reunindo 47 estudos, encontrou prevalência combinada de ideação suicida de aproximadamente 25% entre jovens autistas, cerca de um em cada quatro. A prevalência combinada de tentativas de suicídio foi de 8,3%. Estudo sobre suicidabilidade em jovens autistas
Há um aspecto desse estudo que merece uma reflexão especial: os relatos dos próprios jovens indicaram suicidabilidade com maior frequência do que os relatos feitos por seus pais.
Não se trata de responsabilizar famílias por não perceberem. Trata-se de reconhecer algo muito mais complexo: sofrimento nem sempre é facilmente identificável por quem está ao redor, e nem todas as pessoas conseguem comunicá-lo da mesma maneira.
Quando o sofrimento não se parece com aquilo que esperamos
Não existe uma única maneira de uma pessoa autista demonstrar sofrimento.
Diferenças na comunicação, na percepção e expressão de estados internos e nas formas individuais de responder ao ambiente tornam especialmente importante conhecer aquela pessoa para além de seu diagnóstico.
Como ela costuma se comunicar? O que representa uma mudança importante em seu comportamento? O que a regula? O que a desorganiza? Houve alterações no sono, no interesse por atividades, na interação, na rotina ou na maneira como ela responde a situações que anteriormente conseguia vivenciar?
Uma revisão atualizada sobre suicídio e autismo, contemplando estudos publicados entre 2018 e 2024, também chama atenção para lacunas que ainda existem na área, incluindo a necessidade de instrumentos de avaliação e estratégias de intervenção adequados às características da população autista. Revisão científica — Updated Systematic Review of Suicide in Autism: 2018–2024
Isso nos leva a uma questão essencial:
Para reconhecer uma mudança, primeiro precisamos conhecer e respeitar a forma daquela pessoa existir no mundo.
Prevenção também começa antes da crise
Quando falamos em prevenção ao suicídio, é indispensável falar sobre acesso aos serviços de saúde e saúde mental, identificação de risco, acompanhamento profissional e redes de apoio. Mas prevenção não deveria começar somente quando alguém chega ao limite.
Ela também se constrói muito antes.
Constrói-se quando acreditamos em alguém que diz que não está bem. Quando uma criança não precisa suportar bullying para permanecer incluída. Quando um adolescente encontra ambientes em que sua diferença não é constantemente tratada como inadequação. Quando uma pessoa autista não sente que precisa esconder permanentemente características de si mesma para ser aceita.
Constrói-se quando escolas compreendem que inclusão não significa apenas permitir que alguém permaneça em determinado espaço, mas criar condições para que essa pessoa possa participar, aprender, comunicar-se e pertencer.
E também quando famílias encontram apoio, profissionais têm acesso à formação adequada e a sociedade deixa de exigir que uma pessoa chegue ao limite para que seu sofrimento seja reconhecido.
Talvez prevenir o suicídio também seja isso: construir um mundo em que alguém não precise chegar ao limite para finalmente ser percebido.
Pertencimento também é uma questão de saúde mental
Pertencer não significa simplesmente estar presente.
É poder existir sem precisar gastar grande parte de sua energia tentando parecer alguém que o ambiente considera mais aceitável. É ter necessidades reconhecidas. É encontrar possibilidades de comunicação. É ser ouvido mesmo quando a comunicação acontece de maneiras diferentes daquelas que estamos acostumados a reconhecer.
Por isso, falar sobre prevenção dentro do universo do autismo exige mais do que acrescentar uma estatística a uma campanha de Setembro Amarelo. Exige perguntar quais ambientes estamos construindo para as pessoas autistas ao longo de toda a vida.
A escola acolhe ou apenas tolera?
O trabalho oferece condições de participação ou exige adaptação unilateral?
Os serviços de saúde estão preparados para diferentes formas de comunicação?
Quando um comportamento muda, procuramos simplesmente interrompê-lo ou tentamos compreender o que aquela mudança pode estar comunicando?
São perguntas que não oferecem respostas simples. Mas ajudam a deslocar a prevenção de um único momento de crise para uma cultura permanente de cuidado.
Escutar também exige aprender a escutar diferente
A campanha global da Organização Mundial da Saúde para 2024–2026 adotou o tema “Changing the Narrative on Suicide”, mudar a narrativa sobre o suicídio, com o chamado para iniciar conversas que contribuam para romper o silêncio e o estigma em torno do tema. World Suicide Prevention Day — WHO
Em 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde também reforça a necessidade de acelerar ações de prevenção baseadas em evidências nas Américas e de fortalecer a cooperação entre diferentes setores da sociedade. Dia Mundial de Prevenção do Suicídio 2026 — OPAS/OMS
No Instituto TEAproxima, acreditamos que essa mudança de narrativa também precisa incluir pessoas cuja comunicação, percepção e experiência do mundo podem ser diferentes.
Porque escutar não é apenas esperar que alguém encontre as palavras certas.
Escutar também é aprender a reconhecer outras formas de dizer.Neste Setembro Amarelo, o amarelo pode nos lembrar de algo que deveria permanecer conosco durante todos os outros meses do ano: olhar com atenção, escutar sem julgamento, acreditar quando alguém comunica sofrimento, buscar ajuda profissional e construir ambientes nos quais as pessoas possam existir sem precisar esconder quem são para pertencer.
Porque informação gera empatia.
Empatia gera respeito.E pertencimento também pode proteger vidas.
Serviço | Onde buscar ajuda
Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento emocional ou apresentar risco de suicídio, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Centro de Valorização da Vida — CVV
Em situações de risco imediato, procure um serviço de urgência e emergência ou acione o SAMU pelo 192.
Para familiares, cuidadores e profissionais de pessoas autistas, mudanças significativas em relação ao padrão habitual da pessoa merecem atenção. Diante de preocupação com a segurança ou saúde mental, não é necessário esperar que exista um pedido explícito de ajuda para buscar avaliação profissional.
Referências
SANTOMAURO, D. F. et al. The global burden of suicide mortality among people on the autism spectrum: A systematic review, meta-analysis, and extension of estimates from the Global Burden of Disease Study 2021. Psychiatry Research, v. 341, 116150, 2024. DOI: 10.1016/j.psychres.2024.116150.
O’HALLORAN, L.; COEY, P.; WILSON, C. Suicidality in autistic youth: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, v. 93, 102144, 2022. DOI: 10.1016/j.cpr.2022.102144.
BROWN, C. M. et al. Updated Systematic Review of Suicide in Autism: 2018–2024. Current Developmental Disorders Reports, v. 11, p. 225–256, 2024. DOI: 10.1007/s40474-024-00308-9.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). World Suicide Prevention Day 2026: Changing the Narrative on Suicide. 2026.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS/OMS). World Suicide Prevention Day 2026: A Year of Driving Regional Action. 2026.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.
— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis do Instituto TEAproxima.


