Dia do Psicólogo | Compreender uma pessoa é muito mais do que nomear um diagnóstico

Por Caroline Chromiec | Instituto TEAproxima

Da clínica à escola, do trabalho à família, a Psicologia nos convida a olhar além daquilo que aparece. No Dia do Psicólogo, o Instituto TEAproxima propõe uma reflexão sobre ciência, comportamento, saúde mental e o compromisso de não perder a pessoa de vista.

Há comportamentos que chegam antes das palavras. Uma criança que grita quando todos esperavam que permanecesse sentada. Um adolescente que se isola. Um estudante que começa a recusar a escola. Um adulto que continua trabalhando, cumprindo prazos e respondendo mensagens enquanto, silenciosamente, já não consegue sustentar o peso da própria rotina. Uma mãe que parece forte porque aprendeu que, muitas vezes, não existe outra opção.

O que vemos é o comportamento. Mas o que sabemos sobre aquilo que existe por trás dele?

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que a Psicologia nos ensina a fazer.

No dia 27 de agosto, quando celebramos o Dia do Psicólogo no Brasil, poderíamos falar sobre escuta, acolhimento, saúde mental, diagnóstico e terapia. Tudo isso pertence à profissão. Mas seria pouco. Porque reduzir a Psicologia ao consultório é deixar de enxergar justamente a dimensão que torna essa ciência tão presente na vida humana.

O próprio documento de atribuições profissionais elaborado pelo Conselho Federal de Psicologia descreve uma atuação que envolve o estudo dos processos individuais e das relações entre as pessoas, considerando história pessoal, familiar e social, além das condições políticas, históricas e culturais. A Psicologia está formalmente inserida em áreas como educação, saúde, trabalho, justiça e comunidades, tendo entre seus objetivos a promoção da dignidade e da integridade humana.

Isso nos leva a uma reflexão que, para o Instituto TEAproxima, é fundamental: compreender uma pessoa é muito mais do que nomear um diagnóstico.

O que existe antes do comportamento?

Vivemos em uma sociedade muito rápida para interpretar comportamentos.

A criança que não permanece sentada é “mal-educada”. A que não responde é “desinteressada”. A que entra em crise “precisa aprender limites”. O estudante que não acompanha “não se esforça”. O trabalhador que já não consegue produzir como antes “não sabe lidar com pressão”.

As explicações chegam rapidamente. A compreensão, nem sempre.

É justamente aí que o olhar psicológico pode mudar a direção da conversa. Não porque todo comportamento deva ser aceito sem intervenção, tampouco porque toda dificuldade precise receber um diagnóstico, mas porque comportamentos não acontecem no vazio. Existem antecedentes, ambientes, relações, experiências, aprendizagens, emoções, necessidades, condições sociais e histórias individuais que precisam ser consideradas.

A própria definição profissional da Psicologia parte dessa complexidade ao estabelecer que compreender o comportamento humano implica analisar fatores pessoais, familiares, sociais, ambientais e psicossociais, e não apenas aquilo que aparece externamente.

No universo do autismo e da deficiência intelectual, essa compreensão ganha uma dimensão ainda mais profunda. Para algumas pessoas, o comportamento pode comunicar aquilo que a linguagem oral não consegue expressar com precisão. Sobrecarga sensorial, dificuldade para compreender uma demanda, medo, dor, frustração, cansaço, necessidade de previsibilidade ou impossibilidade momentânea de continuar naquele ambiente podem aparecer antes que alguém consiga explicar o que está acontecendo.

Por isso, há uma diferença enorme entre perguntar “como fazemos esse comportamento parar?” e começar por “o que precisamos compreender sobre esse comportamento?”

Uma pergunta não impede a intervenção. Ela pode torná-la mais responsável.

Ciência e humanidade precisam caber na mesma sala

Há outro cuidado necessário nessa conversa. A defesa de uma Psicologia humana não pode ser confundida com uma Psicologia baseada apenas em sensibilidade, intuição ou boa intenção.

A ciência importa.

As evidências importam.

A ética importa.

E a pessoa também.

O estudo O papel do psicólogo e sua importância na humanização da rotina de trabalho dos profissionais de saúde pública no enfrentamento à Covid-19, utilizado como uma das referências desta matéria, analisou a importância da saúde emocional e do suporte psicológico a trabalhadores submetidos a condições extremas. A revisão aponta a relevância da escuta, da compreensão, do respeito e de estratégias profissionais construídas a partir das necessidades identificadas.

Mais adiante, os autores defendem explicitamente uma atuação fundamentada em conhecimento científico para orientar a escolha das intervenções.

Essa combinação interessa muito ao TEAproxima.

Porque não deveríamos precisar escolher entre evidência e acolhimento.

Uma prática pode ser tecnicamente rigorosa sem ser fria. Pode ser humana sem abandonar a ciência. Pode buscar mudanças sem transformar diferença em defeito.

Especialmente quando falamos de pessoas autistas, essa fronteira exige responsabilidade. Uma intervenção precisa perguntar o que efetivamente amplia qualidade de vida, comunicação, autonomia, segurança e participação — e o que existe apenas para fazer aquela pessoa corresponder melhor às expectativas de quem está ao redor.

Nem tudo o que é diferente precisa ser corrigido.

E nem tudo o que causa sofrimento deve ser romantizado como diferença.

É justamente por isso que precisamos de profissionais preparados para fazer essa distinção.

Na escola, talvez o problema não esteja somente no estudante

Para as famílias que vivem diariamente os desafios da inclusão, existe uma cena conhecida: diante de uma dificuldade escolar, quase todas as perguntas começam pela criança.

Por que ela não permanece em sala?

Por que não acompanha a turma?

Por que não consegue realizar aquela atividade?

Por que apresenta determinado comportamento?

São perguntas legítimas. Mas são insuficientes quando todas apontam para o mesmo lugar.

A Psicologia Escolar nos oferece a possibilidade de deslocar parte desse olhar para o contexto.

O CFP reconhece como atribuições da Psicologia Educacional o trabalho com estudantes, professores, famílias, direção e demais integrantes da comunidade escolar, inclusive para identificar e enfrentar problemas psicossociais que possam impedir o desenvolvimento das potencialidades dos estudantes. Também prevê ações coletivas e interdisciplinares voltadas à relação professor-aluno e à construção de metodologias que favoreçam aprendizagem e desenvolvimento.

A defesa dessa presença não ficou apenas no campo profissional. Ao apresentar dez razões para a atuação da Psicologia e do Serviço Social nas escolas, o Conselho Federal de Psicologia destaca a contribuição desses profissionais para estratégias de aprendizagem em uma perspectiva plural e inclusiva e para a formação continuada das equipes escolares.

Essa perspectiva muda profundamente a lógica da inclusão.

Porque, algumas vezes, precisamos investigar as necessidades do estudante.

Em outras, precisamos perguntar quais barreiras a própria escola ainda não conseguiu remover.

Inclusão não pode significar simplesmente preparar indefinidamente uma criança para suportar um ambiente que permanece exatamente igual.

No trabalho, saúde mental também é responsabilidade do ambiente

O mesmo raciocínio atravessa a vida adulta.

Por muito tempo, falar de saúde mental no trabalho significou falar sobre aquilo que o trabalhador deveria fazer para conseguir lidar melhor com a pressão: organizar a rotina, administrar o estresse, descansar, buscar equilíbrio, desenvolver resiliência.

Essas estratégias podem ser importantes. Mas há uma pergunta anterior que não pode desaparecer: o que existe nesse ambiente de trabalho que está produzindo ou agravando sofrimento?

Em posicionamento publicado em 2025, o Conselho Federal de Psicologia chamou atenção para fatores psicossociais relacionados à organização e gestão do trabalho e às relações interpessoais. Entre eles estão demandas emocionais excessivas, assédio moral, discriminação, precarização e insegurança laboral.

O dado apresentado pelo CFP dimensiona a gravidade do problema: os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais registrados no país teriam passado de 91,6 mil em 2020 para 472 mil em 2024.

Não estamos, portanto, falando apenas sobre indivíduos que precisam aprender a suportar melhor suas rotinas.

Estamos falando também sobre ambientes que precisam ser transformados.

A Psicologia Organizacional e do Trabalho tem atribuições que incluem aspectos psicossociais da segurança laboral, diagnóstico das organizações, saúde mental, prevenção e qualidade de vida do trabalhador.

É uma mudança importante de perspectiva: cuidar da saúde mental não pode significar ensinar pessoas a permanecerem saudáveis dentro de estruturas que continuamente as adoecem.

E quando o diagnóstico chega?

No Instituto TEAproxima, essa pergunta atravessa boa parte da nossa caminhada.

Diagnósticos importam.

Podem dar nome a experiências que permaneceram incompreendidas durante anos. Podem direcionar intervenções, orientar famílias, permitir acesso a direitos, apoiar decisões clínicas e educacionais e contribuir para que a própria pessoa compreenda melhor determinadas características de seu funcionamento.

Mas o diagnóstico nunca chega sozinho.

Junto dele existe uma pessoa que já estava ali antes.

Com preferências, medos, formas particulares de demonstrar afeto, habilidades, limites, interesses, história, relações e uma maneira própria de experimentar o mundo.

Talvez uma das responsabilidades mais delicadas da Psicologia esteja exatamente nessa fronteira: utilizar aquilo que a ciência consegue explicar sem permitir que uma classificação passe a explicar a pessoa inteira.

O Centro CEREBRO, ao discutir o papel do psicólogo na promoção da saúde mental e da qualidade de vida, destaca uma atuação que ultrapassa a identificação de transtornos e envolve autoconhecimento, relações, adaptação às mudanças, estratégias para enfrentar dificuldades e intervenções individualizadas.

Há algo importante nessa individualização.

Duas pessoas podem compartilhar um mesmo diagnóstico e precisar de caminhos profundamente diferentes.

Duas crianças autistas podem comunicar de formas distintas.

Duas famílias podem viver necessidades completamente diferentes.

Dois estudantes podem encontrar barreiras distintas dentro da mesma escola.

O diagnóstico pode nos oferecer informações sobre uma condição. A escuta e a avaliação cuidadosa nos aproximam daquela pessoa.

A Psicologia que precisamos defender

Talvez o Dia do Psicólogo seja também uma oportunidade de dizer qual Psicologia queremos fortalecer.

Uma Psicologia que estude.

Que questione.

Que não transforme opinião em evidência.

Que reconheça os limites do próprio conhecimento.

Que trabalhe em diálogo com outras áreas.

Que saiba que acolher não significa concordar com tudo e que intervir não significa controlar tudo.

Uma Psicologia capaz de olhar para uma criança e enxergar mais do que um comportamento. Para uma família e enxergar mais do que suas dificuldades. Para um estudante e enxergar mais do que seu desempenho. Para um trabalhador e enxergar mais do que sua produtividade.

E, principalmente, uma Psicologia que não se esqueça de que ciência e dignidade humana precisam caminhar juntas.

O documento de atribuições da profissão talvez ajude a dimensionar essa responsabilidade: psicólogos atuam em hospitais, escolas, empresas, comunidades, serviços de saúde, organizações sociais, sistema de Justiça e inúmeros outros espaços em que relações humanas acontecem.

É uma profissão que encontra pessoas em diferentes momentos da vida.

Às vezes, quando procuram respostas.

Às vezes, quando perderam algumas delas.

Reflexão do Instituto TEAproxima

No Dia do Psicólogo, nossa homenagem não está apenas na palavra “escuta”, embora escutar seja essencial.

Está também na ciência que sustenta decisões. Na ética que estabelece limites. Na capacidade de reconhecer contexto. Na coragem de rever hipóteses. Na responsabilidade de não reduzir uma pessoa àquilo que é mais fácil observar nela.

Para nós, existe uma pergunta que merece permanecer depois desta leitura:

Antes de tentar mudar uma pessoa, nós realmente procuramos compreendê-la?

No autismo, na deficiência, na escola, no trabalho, na clínica ou dentro de uma família, talvez esse seja um dos encontros mais importantes que a Psicologia pode proporcionar.

Porque compreender uma pessoa é muito mais do que nomear um diagnóstico.

E porque, depois do diagnóstico, do comportamento, da avaliação, do protocolo e da intervenção, precisa continuar existindo alguém que jamais deveria ter desaparecido do nosso olhar:

a pessoa.

Referências

Conselho Federal de Psicologia. Atribuições Profissionais do Psicólogo no Brasil. O documento apresenta a amplitude da atuação profissional e sua presença nos campos da saúde, educação, trabalho, justiça e comunidades.

Conselho Federal de Psicologia. CFP defende papel fundamental da Psicologia na gestão de riscos psicossociais no trabalho, 2025. Acessar publicação do CFP

Conselho Federal de Psicologia. 10 razões para a presença da Psicologia e do Serviço Social nas escolas, 2021. Acessar publicação do CFP

Centro CEREBRO. Qual é o papel do Psicólogo na promoção da saúde mental e da qualidade de vida? Acessar artigo

Goulart, A. C. S.; Lima, L. P. P.; Oliveira, L. R. V.; Nascimento, M. A. O papel do psicólogo e sua importância na humanização da rotina de trabalho dos profissionais de saúde pública no enfrentamento à Covid-19: revisão bibliográfica de literatura.

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis no Instituto TEAproxima.