Por Caroline Chromiec | Instituto TEAproxima
No Dia dos Pais, o Instituto TEAproxima propõe uma reflexão sobre o papel paterno no desenvolvimento de crianças autistas e sobre como princípios da Análise do Comportamento podem ajudar pais a compreender comportamentos, favorecer autonomia e construir novas formas de conexão com seus filhos.
Há uma imagem de paternidade que aprendemos muito cedo. O pai que ensina a andar de bicicleta, acompanha o primeiro dia de aula, conversa, brinca, aconselha e, de alguma maneira, parece saber o que fazer.
Mas o que acontece quando a paternidade chega acompanhada de perguntas para as quais ninguém preparou aquele homem?
Quando o filho não fala. Quando não responde como o esperado. Quando o abraço pode incomodar. Quando uma mudança aparentemente pequena desencadeia uma crise. Quando a família passa a organizar horários, ambientes, terapias, escola e rotina em torno de necessidades que ainda está aprendendo a compreender.
A paternidade atípica também começa nesse lugar: quando muitas das referências conhecidas deixam de ser suficientes e o pai precisa aprender uma nova maneira de conhecer o próprio filho.
E talvez por isso a frase escolhida pelo Instituto TEAproxima para este Dia dos Pais diga tanto:
“Paternidade atípica: não é sobre ter todas as respostas. É sobre nunca deixar de procurar caminhos juntos.”
Não romantizamos esse caminho. Sabemos que há exaustão, medo, insegurança, sobrecarga e dias difíceis. Mas há também uma dimensão da paternidade que merece ser colocada no centro da conversa: a potência de um pai que decide participar.
Quando estar presente significa também aprender
Essa discussão é abordada no ensaio científico Paternidade Atípica e Análise do Comportamento: a potência do pai como agente de transformação no TEA, de Francisco Narthagnan Chaves da Silva.
O autor reúne duas perspectivas que tornam seu texto especialmente interessante: a profissional, como analista do comportamento, e a pessoal, como pai de dois filhos autistas e também uma pessoa autista. O ensaio sustenta que o envolvimento consciente do pai pode contribuir para o desenvolvimento da criança, fortalecer os vínculos familiares e transformar a própria experiência da paternidade.
Há uma diferença importante entre estar na casa e estar implicado na vida do filho.
Participar significa conhecer suas formas de comunicação, compreender suas necessidades sensoriais, reconhecer aquilo que antecede determinados comportamentos, participar das orientações profissionais, aprender estratégias, perceber conquistas que talvez sejam invisíveis para quem observa de fora e, principalmente, construir uma relação que não esteja condicionada à expectativa de uma criança típica.
Isso exige disponibilidade para aprender.
E aprender sobre o próprio filho talvez seja uma das formas mais profundas de exercer a paternidade.
O comportamento também comunica
Um dos pontos mais importantes do artigo está justamente na aproximação entre paternidade e Análise do Comportamento.
Quando princípios da ABA chegam ao cotidiano da família, o pai pode começar a observar determinadas situações por outra perspectiva. O texto exemplifica essa mudança ao mostrar que desafios frequentemente interpretados como “manha” podem passar a ser compreendidos a partir de sua função e como formas de comunicação.
Isso muda muita coisa.
Porque, diante de um comportamento desafiador, a pergunta deixa de ser apenas:
“Como faço isso parar?”
E pode passar a ser:
“O que meu filho está tentando comunicar?”
O que aconteceu antes?
Existe desconforto?
Há uma demanda difícil demais?
O ambiente está oferecendo estímulos em excesso?
A criança está tentando acessar algo, escapar de uma situação, pedir ajuda ou comunicar uma necessidade que ainda não consegue expressar de outra maneira?
Essa mudança de perspectiva não elimina os desafios. Mas modifica profundamente a maneira como o adulto responde a eles.
O pai não precisa se transformar em terapeuta
Aqui existe um cuidado fundamental.
Defender a participação dos pais e a utilização de estratégias baseadas em evidências no ambiente familiar não significa transformar a casa em uma clínica, nem o pai em terapeuta do próprio filho.
Pai precisa continuar sendo pai.
O que o conhecimento pode oferecer são ferramentas para tornar as interações cotidianas mais compreensíveis e intencionais.
O artigo destaca justamente o potencial dos ambientes naturais. O lar é onde grande parte da vida acontece: na hora de vestir uma roupa, durante uma refeição, no banho, em uma brincadeira, na saída de casa, em um passeio ou em uma tentativa espontânea de comunicação.
Ao discutir abordagens naturalísticas, o autor cita o Ensino em Ambiente Natural (NET) e o Treinamento de Respostas Pivôs (PRT), mostrando como interesses, iniciativas e motivações da própria criança podem integrar oportunidades de aprendizagem.
É uma mudança sutil, mas poderosa.
A aprendizagem deixa de pertencer exclusivamente à sessão terapêutica e começa a encontrar significado na própria vida.
Autonomia também é uma declaração de amor
Talvez uma das passagens mais significativas do ensaio apareça quando o autor fala sobre o objetivo que construiu para seus próprios filhos.
Sua meta, afirma, não está na busca pela “cura”, mas no desenvolvimento da funcionalidade, da autonomia, da possibilidade de fazer escolhas e de alcançar qualidade de vida.
Essa reflexão merece espaço.
Durante muito tempo, discursos sobre deficiência e autismo foram construídos em torno daquilo que uma criança não fazia, não alcançava ou precisava aprender para se aproximar de um padrão considerado esperado.
Uma paternidade verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento pode fazer outra pergunta:
“Do que meu filho precisa para viver a vida dele com mais autonomia, dignidade e possibilidades?”
Autonomia não significa ausência de suporte.
Para algumas pessoas autistas, ela poderá significar independência em diversas áreas. Para outras, significará participar de escolhas, comunicar preferências, adquirir habilidades funcionais ou conquistar pequenas possibilidades dentro de uma vida que continuará demandando apoio significativo.
Por isso, não existe uma única régua para medir desenvolvimento.
Existe uma pessoa.
Há também um pai sendo transformado
Falamos muito sobre o que um pai pode fazer pelo desenvolvimento de um filho.
Talvez falemos pouco sobre o que essa relação também faz com o pai.
No relato que atravessa o artigo, Francisco conta que foi justamente durante a busca por compreender e ajudar seus filhos que encontrou elementos para compreender a si mesmo e chegar ao próprio diagnóstico de autismo.
É uma dimensão profundamente humana dessa discussão.
A paternidade atípica pode obrigar um homem a rever expectativas, crenças, formas de comunicação, ideias sobre sucesso, desenvolvimento, masculinidade, cuidado e até sobre si próprio.
O pai ensina.
Mas também aprende.
Ajuda o filho a construir autonomia enquanto precisa reconstruir suas próprias referências.
Procura compreender comportamentos e, nesse percurso, muitas vezes passa a compreender melhor suas próprias reações.
A transformação, portanto, não acontece em uma única direção.
Presença não deveria ser exceção
Existe ainda uma questão desconfortável que uma matéria sobre paternidade atípica não deveria evitar.
O próprio ensaio contrapõe a potência do pai envolvido à realidade do abandono e da sobrecarga que pode recair sobre as mães. Ao tratar dos dados frequentemente citados sobre abandono paterno em famílias de pessoas com deficiência ou doenças raras, o autor também reconhece limitações importantes: faltam censos oficiais que cruzem especificamente abandono paterno e diagnóstico de TEA.
Esse cuidado metodológico importa.
Mas, para além de qualquer número isolado, existe uma discussão social necessária: cuidar de um filho não é ajudar a mãe. É exercer a própria parentalidade.
Dividir decisões, conhecer terapeutas, participar da vida escolar, aprender sobre o diagnóstico, compreender a comunicação da criança, acompanhar momentos difíceis e conhecer aquilo que faz aquele filho feliz não deveria ser considerado extraordinário.
É responsabilidade parental.
Ao mesmo tempo, reconhecer isso não significa ignorar os pais que também estão exaustos, assustados e tentando encontrar um caminho. Homens também precisam encontrar espaços onde possam perguntar, aprender, elaborar o diagnóstico e compreender que pedir orientação não diminui sua paternidade.
Pode fortalecê-la.
Ciência sem vínculo não conta toda a história
A Análise do Comportamento oferece instrumentos importantes para compreender relações entre comportamento e ambiente e construir estratégias de aprendizagem. O artigo ressalta, ainda, a importância da generalização e manutenção de habilidades no contexto familiar.
Mas existe algo que nenhum protocolo substitui: conhecer profundamente aquela criança.
Seus interesses.
Seus limites.
Sua maneira de demonstrar afeto.
Aquilo que a regula.
Aquilo que a desorganiza.
O tempo que precisa.
As formas pelas quais consegue dizer “sim”, “não”, “chega”, “quero”, “não consigo” ou “fica comigo”.
Ciência e afeto não precisam ocupar lados opostos.
A ciência pode nos ajudar a encontrar caminhos mais responsáveis. O vínculo nos lembra para quem estamos construindo esses caminhos.
Neste Dia dos Pais, uma pergunta diferente
Talvez hoje não precisemos perguntar aos pais atípicos se eles já aprenderam tudo o que precisam saber.
Provavelmente nunca aprenderão.
Nenhum de nós aprende.
Talvez a pergunta seja outra:
Você continua disposto a conhecer o seu filho?
Conhecê-lo para além do diagnóstico.
Para além do nível de suporte.
Para além das comparações.
Para além daquilo que ainda não aconteceu.
Porque há pais que passam anos procurando respostas e, no meio dessa procura, descobrem algo ainda maior: seu filho não precisava de um pai que soubesse antecipadamente todos os caminhos. Precisava de alguém disposto a continuar caminhando ao lado dele.
O artigo termina justamente colocando a decisão de permanecer, envolver-se e aprender como uma experiência capaz de transformar tanto a criança quanto o próprio pai.
Neste Dia dos Pais, o Instituto TEAproxima deixa seu reconhecimento a esses homens.
Aos que estudam.
Aos que perguntam.
Aos que erram e voltam para tentar de outro jeito.
Aos que aprendem uma nova forma de brincar, comunicar, esperar e celebrar.
Aos que entenderam que uma pequena conquista pode carregar uma história inteira.
E, especialmente, aos que descobriram que paternidade atípica não é sobre ter todas as respostas.
É sobre nunca deixar de procurar caminhos juntos.
REFERÊNCIA
SILVA, Francisco Narthagnan Chaves da. Paternidade atípica e análise do comportamento: a potência do pai como agente de transformação no TEA. Vol. 05, n. 04, 2025. O trabalho apresenta como palavras-chave paternidade atípica, Análise do Comportamento, Transtorno do Espectro Autista, envolvimento paterno e neurodiversidade.
O artigo também referencia trabalhos de Hart & Risley sobre ensino incidental; Koegel & Koegel sobre PRT; Lamb sobre o papel paterno no desenvolvimento; Schreibman et al. sobre intervenções comportamentais desenvolvimentais naturalísticas; além de estudos brasileiros relacionados à experiência da paternidade diante da deficiência e da doença crônica.
— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.
— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis no Instituto TEAproxima.