Amizade também pode morar no silêncio

Por Caroline ChromiecInstituto TEAproxima

No Dia do Amigo, o Instituto TEAproxima convida a sociedade a reconhecer que pessoas autistas podem criar vínculos profundos, ainda que expressem afeto, presença e conexão de maneiras diferentes.

A amizade costuma ser retratada por conversas intermináveis, encontros frequentes, abraços, festas, mensagens diárias e grandes demonstrações de afeto.

Mas essa não é a única maneira de construir um vínculo.

Para algumas pessoas autistas, a amizade pode estar na companhia silenciosa, na troca sobre um interesse especial, na mensagem enviada depois de vários dias, na presença respeitosa ou na segurança de saber que não será preciso esconder características pessoais para continuar pertencendo.

Amizade também pode ser dividir o mesmo espaço sem a obrigação de preencher cada silêncio.

O desejo de conexão existe

Por muito tempo, diferenças na comunicação e na interação social contribuíram para a criação de um estereótipo segundo o qual pessoas autistas não teriam interesse em fazer amigos.

A experiência de muitas pessoas autistas e as pesquisas atuais mostram uma realidade mais complexa. Pessoas no espectro desejam vínculos, valorizam amizades e podem encontrar nelas pertencimento, apoio emocional e bem-estar. O que muda, em alguns casos, é a forma de iniciar, demonstrar e manter essas relações.

Nem toda pessoa autista deseja muitos amigos. Nem toda pessoa não autista também.

Algumas preferem poucos vínculos, com maior profundidade. Outras se conectam por meio de atividades, interesses em comum, jogos, estudos, trabalho ou comunidades digitais. Há ainda quem precise de mais tempo sozinha para se regular, sem que essa necessidade represente falta de carinho ou rejeição.

É importante diferenciar solitude e solidão. Estar só pode ser uma experiência desejada e restauradora. A solidão aparece quando existe desejo de conexão, mas faltam vínculos seguros, acessíveis e verdadeiros.

Quando a amizade não exige atuação

Uma amizade acolhedora permite que a pessoa exista sem precisar controlar constantemente seus movimentos, esconder necessidades sensoriais, ensaiar respostas ou imitar comportamentos para parecer socialmente adequada.

Para algumas pessoas autistas, interações sociais podem envolver um esforço significativo de interpretação: compreender indiretas, identificar mudanças sutis no tom de voz, saber quando falar, perceber se uma conversa terminou ou lidar com situações imprevisíveis.

Quando o vínculo aceita uma comunicação mais direta e respeita diferentes ritmos, a relação pode se tornar mais segura.

Isso significa poder dizer:

“Hoje não consigo conversar.”

“Preciso ir embora mais cedo.”

“Prefiro que você seja direto comigo.”

“Gosto de estar com você, mesmo quando fico em silêncio.”

A amizade amadurece quando essas frases não são interpretadas automaticamente como frieza, desinteresse ou falta de consideração.

Afinidades que criam pontes

Interesses compartilhados podem ocupar um lugar importante nas amizades autistas.

Falar profundamente sobre um assunto, realizar uma atividade em paralelo, trocar informações, jogar, assistir a uma série ou compartilhar referências pode ser uma forma genuína de intimidade.

Em vez de considerar esses vínculos limitados porque não seguem um roteiro convencional, é preciso reconhecer a profundidade que pode existir na confiança, na constância e na liberdade de compartilhar aquilo que desperta verdadeiro interesse.

Estudos sobre conexão entre pessoas autistas descrevem experiências de compreensão mútua, autenticidade e pertencimento. Para alguns participantes, estar com outras pessoas autistas reduz a necessidade de explicar permanentemente seu modo de funcionar.

Presença não se mede apenas pela frequência

Há amizades que atravessam longos períodos com poucas mensagens e continuam sendo importantes.

A dificuldade para iniciar uma conversa, responder rapidamente ou organizar encontros não significa, por si só, que a pessoa deixou de se importar. Questões de energia, sobrecarga, funções executivas, comunicação e necessidade de recuperação social podem interferir na frequência do contato.

Uma amizade inclusiva não exige disponibilidade permanente para comprovar afeto. Ela constrói acordos possíveis para as duas pessoas.

Pode ser uma mensagem sem cobrança.

Um encontro planejado com antecedência.

Uma atividade com início e término definidos.

Um lugar menos barulhento.

A possibilidade de cancelar sem culpa quando existe sobrecarga.

Esses cuidados não diminuem a espontaneidade. Eles criam segurança para que a relação exista.

Amizade também se aprende no encontro

Nenhuma relação depende de uma pessoa apenas.

Durante muito tempo, pessoas autistas foram incentivadas a aprender regras sociais para se adaptar aos padrões da maioria. Mas amizades verdadeiramente inclusivas também exigem que pessoas não autistas aprendam a reconhecer outros estilos de comunicação, presença e demonstração de afeto.

A conexão acontece quando ambos conseguem se aproximar.

Quando existe curiosidade em vez de julgamento.

Quando a diferença não precisa ser corrigida para que o vínculo seja considerado válido.

Quando o silêncio não é interpretado como vazio.

Para famílias e escolas

Crianças autistas não devem ser forçadas a demonstrar amizade de uma única maneira.

Compartilhar brinquedos imediatamente, participar de brincadeiras coletivas, manter contato visual ou conversar durante toda a interação não são os únicos indicadores de vínculo.

Pais e educadores podem ajudar criando oportunidades de encontro baseadas em interesses reais, respeitando o tempo de aproximação, mediando situações de exclusão e oferecendo ambientes sensorialmente mais acessíveis.

Também é importante observar o bullying, a manipulação e relações em que a criança é tolerada, mas não respeitada. Pessoas autistas podem precisar de apoio para reconhecer limites, reciprocidade e segurança nas relações, sem que isso signifique controlar todas as suas escolhas.

A amizade que acolhe o jeito de existir

No Dia do Amigo, o Instituto TEAproxima propõe uma pergunta:

Será que estamos reconhecendo as amizades das pessoas autistas ou apenas procurando nelas a forma como nós aprendemos a ser amigos?

Uma amizade pode ser intensa ou tranquila.

Pode acontecer pessoalmente ou pela internet.

Pode ter muitas palavras ou longos silêncios.

Pode nascer de uma conversa profunda, de um jogo, de uma coleção, de uma rotina compartilhada ou da certeza de que alguém respeitará os limites do outro.

O que torna um vínculo verdadeiro não é a aparência que ele apresenta para quem observa.

É a confiança construída entre quem o vive.

Porque amizade também é encontrar alguém diante de quem não precisamos deixar de ser quem somos.

Amizade autista não é uma amizade incompleta. É uma forma legítima de construir confiança, presença e pertencimento.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5-TR. 5. ed. Washington, DC: APA Publishing, 2022.

Organização Mundial da Saúde. International Classification of Diseases (ICD-11): Autism Spectrum Disorder. Genebra: OMS, 2022.

Centers for Disease Control and Prevention. Autism Spectrum Disorder (ASD): Social Communication and Relationships. Atlanta, GA.

National Autistic Society. Friendships and Relationships. Londres.

Autistica. Social Relationships and Wellbeing in Autism. Londres.

Damian Milton. On the Ontological Status of Autism: The ‘Double Empathy Problem’. Disability & Society, 2012.

Catherine Crompton et al. Neurotype Matching, Social Interaction and Mutual Understanding. 2020.

Autism Research Institute. Materiais sobre interação social, vínculos e qualidade de vida.

Autism Speaks. Recursos sobre habilidades sociais e amizades.

BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência).

Referências complementares

Milton, D. (2012). The Double Empathy Problem.

Crompton, C. J. et al. (2020). Neurotype Matching.

Crompton, C. J. et al. (2020). Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective. Nature Human Behaviour.

Morrison, K. E.; DeBrabander, K. M.; Jones, D. R. (2019). Autism spectrum disorder and friendship. Current Developmental Disorders Reports.

 

— Caroline Chromiec
Jornalista, fotógrafa e estrategista de Comunicação Integrada do Instituto TEAproxima. Mãe atípica.

— Giornella Vitalino
Designer e estrategista de experiências visuais acessíveis no Instituto TEAproxima.